O silêncio no estúdio
À medida que a eleição se aproximava, a troca de farpas entre os candidatos aumentava.

Era setembro de 1992 e a campanha eleitoral para escolher o novo prefeito de Campinas pegava fogo.
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Depois de quatro anos de Jacó Bittar à frente da Prefeitura, o ex-prefeito José Roberto Magalhães Teixeira, do PSDB, assumia a liderança das pesquisas e aparecia como favorito. Entre os principais adversários estavam José Aristodemo Pinotti, do PMDB, e Renato Simões, do PT.
À medida que a eleição se aproximava, a troca de farpas entre os candidatos aumentava.
Naquele tempo, a propaganda eleitoral no rádio e na televisão era fundamental para apresentar os candidatos. Internet nos domicílios? Nem pensar. As próprias emissoras também ampliavam o espaço dedicado à cobertura política.
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Eu era repórter da TV Tracajá, afiliada ao SBT.
E foi numa daquelas manhãs que a direção de jornalismo me chamou à sala para passar uma pauta.
Eu tinha pouco mais de vinte anos, mas já sabia que, quando o próprio diretor se encarregava de pautar o repórter, provavelmente não se tratava de uma cobertura qualquer.
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Dito e feito.
Fui escalado para fazer uma reportagem sobre uma punição imposta pela Justiça Eleitoral à Rádio Tracajá, que pertencia ao mesmo grupo da televisão.
O juiz eleitoral Wladimir Valler, conhecido na cidade pela fama de rigor, havia determinado que a Polícia Federal interditasse os estúdios da rádio durante 24 horas. Nesse período, a emissora deveria permanecer fora do ar.
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A punição teria ocorrido depois que a rádio divulgou material considerado irregular contra o candidato tucano.
Minha missão era quase impossível: fazer uma reportagem que não criasse um problema ainda maior para o próprio grupo de comunicação e, ao mesmo tempo, não cutucasse a onça com vara curta.
Eu não fazia ideia de como resolver aquela equação.
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Fiz então uma ponderação ao chefe:
— Se a gente fizer isso, não corre o risco de uma decisão parecida vir também pra TV?
O diretor me olhou firme, coçou a cabeça e decidiu:
— Vamos ver como estão as coisas na rádio. Entreviste o locutor da manhã, fale com o diretor artístico e depois tente o setor jurídico da casa para ver como podemos tratar o assunto. E volte aqui com o texto para eu dar uma olhada.
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Saí da sala, encontrei o cinegrafista no corredor e proferi uma frase que eu adorava usar na época:
— Junião, reúna seus homens!
A frase, que eu havia importado dos velhos filmes de bangue-bangue, já tinha virado uma espécie de senha na redação. Toda vez que eu gritava aquilo pelos corredores, a reação era a mesma: risada geral.
Nos anos 90, uma equipe de reportagem externa de televisão podia ter cinco pessoas: repórter, cinegrafista, operador de VT, iluminador e motorista.
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Equipe reunida, seguimos para a Rádio Tracajá, que funcionava em um belo prédio em frente ao Largo São Benedito.
Quando chegamos, encontramos um ambiente de velório.
A recepcionista se desdobrava diante de um telefone que não parava de tocar. Os locutores, sem ter o que fazer, se amontoavam na salinha do café. E os operadores de áudio circulavam pelos corredores sem saber muito bem o que fazer.
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O radialista que tinha acabado de ter o programa interrompido, Jota Silva, estava indignado.
Antes mesmo de ligarmos a câmera, começou a despejar palavras impublicáveis contra os agentes que haviam interditado o estúdio.
Pensei comigo:
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Aquele dia vai ser longo.
Pouco depois, a recepcionista me procurou:
— O diretor da TV está na linha.
Atendi.
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Ele havia decidido não fazer a reportagem naquele enfoque. Pediu que eu mostrasse apenas que a rádio estudava a possibilidade de recorrer da decisão e que a programação voltaria ao normal no dia seguinte.
Até hoje não sei se houve uma intervenção do setor jurídico, do dono do grupo ou alguma conversa com a Justiça Eleitoral.
O fato é que a reportagem mudou de rumo.
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E o que ficou comigo foi outra coisa.
Aquele estúdio com as luzes apagadas, vazio e silencioso.
Talvez porque, até então, eu tivesse aprendido que uma emissora de rádio era justamente o contrário daquilo: voz, música, telefone tocando, operador correndo, locutor falando, gente entrando e saindo.
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Naquele dia, pela primeira vez, eu vi uma rádio sem rádio.
E, de alguma maneira, aquela imagem nunca mais saiu da minha cabeça.
*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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