Futebol é posicionamento; futebol é política
Ignorante talvez seja aquele que há de afirmar o contrário

Política, tão temida. O antigo pai dos burros, Mini Aurélio, já definia a palavra como um substantivo feminino que compreende o conjunto dos fenômenos e das práticas relativos ao Estado ou à sociedade. O malandro ainda a caracteriza não apenas como a arte e a ciência de bem governar os negócios públicos, mas também como a habilidade no trato das relações humanas.
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Relações humanas, disputas ideológicas, negociações estatais, diplomacia, pertencimento, bandeiras, cores, multidões. Gosma grudenta demais para o precioso. Diga-me: como evitar?
Impossível, eu garanto. Como aceitar a fábula de que o esporte do povo, dos operários, daqueles que sujavam as mãos na graxa das fábricas, fosse neutro ou puramente apolítico? Operários pelo mundo ajudaram a erguer, da poeira que restava no chão da fábrica, colossos de multidões - como Arsenal, Bayer Leverkusen, River Plate, Corinthians, Manchester United e tantos outros. Ainda assim, há quem insista na narrativa ingênua de que é "apenas um jogo". É isso aí, bobalhão. Vovó me disse que são só 22 marmanjos correndo atrás de uma bola, e nada mais que isso.
Tentaram nos convencer de que o jogo onde se ganha ocupando melhor o espaço não é político. Kylian Mbappé, o grande craque mundial, sabe muito bem disso. Mago do xadrez posicional nos gramados, ele usufrui de sua dimensão pública para exercer a cidadania.
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Durante a Eurocopa de 2024, o capitão francês orientou publicamente o eleitorado a barrar a extrema-direita no segundo turno das eleições legislativas: "Mais do que nunca, temos que ir votar. É realmente urgente. Não podemos deixar o país nas mãos destas pessoas. Vimos os resultados. É catastrófico."
Kylian, do subúrbio parisiense, assumiu a liderança dentro e fora de campo. Seus companheiros de seleção e o povo francês atenderam ao chamado, mobilizaram as urnas e a frente ampla virou o jogo contra o extremismo.
Sobre vitórias transformadoras, Didier Drogba e Pelé guardam uma lição político-diplomática em comum: ambos usaram a bola para vencer guerras e conquistar, nem que por 90 minutos, um suspiro de paz.
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A história de Pelé é famosa por aqui, mas a saga de Drogba precisa ser lembrada. Em 2005, após classificar a Costa do Marfim para sua primeira Copa do Mundo, o craque ajoelhou-se no vestiário junto com seus companheiros e, diante das câmeras, implorou, cantou e dançou pelo fim da guerra civil. O país estava rachado: o Sul, de alta classe e maioria cristã, controlado pelo governo; e o Norte, do povão e muçulmano, que buscava espaço em rebeldia.

Créditos: Getty Images
O ápice dessa vitória diplomática aconteceu na goleada por 5 a 0 contra Madagascar, em 2007. Na tribuna do estádio, o presidente Laurent Gbagbo dividia o espaço com o líder rebelde Guillaume Soro. Como resumiu Guy Denis Koné, um combatente da oposição presente na arquibancada: "Drogba e a seleção conseguiram fazer em 90 minutos o que os políticos não conseguiram fazer durante anos".
Mas o futebol também falhou. E falhou de forma cruel.
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Justin Fashanu foi o primeiro jogador abertamente gay da Grã-Bretanha e a primeira transferência milionária de um atleta negro no país, ao ser contratado pelo Nottingham Forest em 1981. O atacante só assumiu sua homossexualidade em 1990, chantageado por um tabloide inglês. A partir dali, sua carreira ruiu sob o peso do preconceito do próprio meio futebolístico, de companheiros e de torcidas hostis. Em 1998, isolado e acuado por acusações não provadas, cometeu suicídio aos 37 anos, deixando uma carta em que dizia não querer ser mais uma "vergonha" para a família.
A tragédia de Fashanu escancara a covardia de um esporte que muitas vezes preferiu varrer a diversidade para o escanteio. A luta LGBTQIAPN+ é uma pauta profundamente política, e a rejeição ao corpo e à liberdade do outro sempre foi a engrenagem com a qual o conservadorismo operou nos gramados.
Não por acaso, essa mesma lógica de controle estatal sobre os corpos também sufocou as mulheres brasileiras. Aqui, elas foram proibidas por lei de jogar futebol por mais de 40 anos.
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Manchete do jornal carioca O Imparcial, publicada em 15 de janeiro de 1941
Créditos: O Imparcial
Tudo começou no Estado Novo varguista, com o Decreto-Lei nº 3.199 de 1941, cujo Artigo 54 veta às mulheres "a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza". Anos depois, em 1965, a ditadura militar aprofundou a proibição, vetando expressamente o futebol, o futsal, o rúgbi, o surf e as lutas. As brasileiras jogavam na clandestinidade, com partidas encerradas à força pela polícia.
Foi preciso a articulação de atletas lendárias como Maria Lenk e a pressão no processo de redemocratização para que, só em 1983, o CND regulamentasse o futebol feminino. O direito de existirem nos gramados e na sociedade foi uma conquista civil e política.
A reconquista da própria democracia no Brasil, aliás, deve imensamente aos gramados. Liderada por Sócrates, Casagrande e Wladimir, a Democracia Corinthiana transformou o clube em uma autêntica célula de resistência. Eles usavam o verso da camisa para estampar "DIA 15 VOTE" na primeira eleição direta para governadores em 1982, e foram linha de frente do movimento pelas Diretas Já.
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Inclusive, em 1984, Sócrates garantiu que, caso a Emenda Dante de Oliveira não fosse aprovada, jogaria no futebol internacional. Proposta essa que tinha por objetivo reinstaurar as eleições diretas para presidente da República no Brasil.
E ele cumpriu sua palavra: com a emenda derrotada no Congresso em 1984, transferiu-se para a Fiorentina. Mas a semente plantada por ele e pelo povo deu frutos na Constituição de 1988 e no retorno do voto direto para presidente em 1989.
O termo democracia vem do grego antigo: a junção de demos (povo) e kratos (poder) - a premissa de que todo poder emana da coletividade. Sócrates, o filósofo ateniense, marcou o pensamento da humanidade. Seu xará brasileiro, o Doutor, lutou dentro e fora dos gramados para devolver os nossos direitos.
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Por tudo isso, exerça a força que você tem e faça como o Doutor: DIA 25 VOTE.
Vote consciente das lutas, da memória, das famílias, da dignidade e de todos os afetos que cercam este país - inclusive o nosso amado futebol.
Como bem sabia a esperança equilibrista, o show de todo artista da bola tem que continuar!
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Fonte de dados: Agência Senado, UOL, Estadão, France Presse, Museu do Gutebol, Glossário Eleitoral do TSE, Goal, Transfermarkt.
*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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