O Leão na Catalunha que performa como gatinho pelo Brasil
O curioso caso do homem que farda tanto a camisa 10 quanto a faixa de capitão da nossa seleção

Essa última Copa foi um marco para testar a pouca paciência que nós, amantes da amarelinha, nunca praticamos. As cinco estrelas no peito carregam uma imensidão de responsabilidades aos que as vestem. Bastou, por exemplo, um único jogo para o zagueiro-lateral Ibañez sumir do radar de Carletto.
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Afinal, a nossa memória é leminskiana: “coisa recente. Até ontem quem lembrava?”. E se essa memória seletiva já assombra um defensor do Al-Ahli, quem dirá quando estiver apontada e engatilhada para um jogador que faz temporadas em nível de Bola de Ouro.
Nesse nível, sim, o peso deve triplicar. Por isso, esqueçamos tudo de bom e encaremos o amargo: Raphinha não é o mesmo! Mas há quem seja.
Vini Jr., o nosso menino prodígio, cravou quatro golaços fardando de peito amarelo o orgulho em sobrevida do Brasil nessa última Copa, assumindo sem contestações, o papel de grande craque da nossa frangalhosa seleção nacional. Quando Marrocos sufocava, somente a grandeza daquele que baila foi suficiente para conseguir um momento de respiro.
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Infelizmente, seu companheiro de ataque não fez o mesmo.
Raphinha errou e, como bom ser humano que é, insistiu nos erros. Assim avalio suas performances pelo Brasil até a lesão que o tirou dessa última Copa do Mundo. Teve apenas uma participação em gol, num amistoso que já não encantaria nem a senhorinha mais cautelosa do crochê da casa de repouso.
Mas algo mudou nesse começo de temporada europeia e deu mais motivos para a nossa inquietação: o sujeito voltou da Copa com sangue nos olhos, somando quatorze gols em oito jogos pelo Barça... Foram dois tripletes seguidos, nas duas últimas rodadas do Campeonato Espanhol.
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Sim, merecíamos muito mais do artilheiro das principais ligas europeias. Mas, mesmo assim, peço licença para tentar advogar pelo cidadão.
Raphinha hoje é como um falso 9 para o Barcelona. Aos desavisados, isso significa que ele joga mais perto do meio-campo e um pouquinho mais distante dos zagueiros. Aos mais desavisados ainda, significa que ele continua ocupando a posição do último homem do ataque, porém de forma criativa, livre e um pouco mais recuado em relação à tradicional banheira do Romário.
“Livre”, inclusive, é uma definição interessante para o futebol do Raphinha. Isso porque, desde que chegou ao Barcelona, também jogou nas duas alas e como maestro pelo meio. Na realidade, foi um meia que também caía pelas pontas, mas era posicionado fundamentalmente na zona do campo que abriga o “camisa 10”, porém com total permissão para correr livre pelos espaços vazio das laterais e áreas mais avançadas.
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Este é o mapa de calor da atual temporada do Raphinha pelo Barcelona, apresentado a seguir, que escancara a necessidade de mobilidade do futebol dele.

Mapa de calor de Raphinha nos primeiros 7 jogos da temporada 26/27 pelo Barcelona na Liga Espanhola
Créditos: Sofascore
O gráfico ilustra bem a liberdade que o atacante possui para se movimentar por toda a extensão do meio para a frente.
Fora que, com os culés, Raphinha tem boa posse de bola que garante suas corridas e respaldo coletivo para o caso de elas não darem certo - parâmetros necessários para que sua inventividade se converta em bons números. No Barça, se ele ataca um espaço, recebe a bola. Nunca está isolado do que é construído em campo.
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Aqui, para mim, reside o grande problema do Raphinha pela seleção: a falta de sustentação no meio-campo para tornar seu jogo mais propício à criatividade. E convenhamos, o setor de criação brasileiro vem cambaleando com nomes fraquíssimos há alguns anos…
Temos um homem que cria muito, por todos os lados, e não parece hábil quando fixado num canto esperando para ser acionado. É certo que o Raphinha, que possui um time orquestrado na Catalunha, não se encaixa no jogo escancaradamente aberto da seleção.
E não, o Mister Ancelotti não é ignorante em relação ao estilo de jogo de Raphinha, e inclusive acredito que ele, aos poucos, vem tentando adaptá-lo à nossa filosofia recente, intrínseca e quase intocável, do futebol pelas alas. Parece que o mestre italiano usa o atacante como um laboratório de testes: muitas mudanças, muitos estilos e pouquíssimos resultados em muito pouco tempo, tornando-se uma bomba a se resolver no curto prazo.
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Veja, no primeiro jogo da Copa contra Marrocos, Raphinha iniciou como ponta e, com a entrada de Luiz Henrique, realocou-se para o meio-campo, por vezes tendo que cair pela esquerda. Mas nada muito orquestrado; parecia muito refém dos companheiros. Correu 11 km feito barata tonta, sem contar os 26 sprints que não pareciam ter tanta direção – ou sentido! Foram muitos esforços gastos a tentar atacar espaços, mas, nesse contexto, deixou o campo criativo brasileiro desestruturado.
Contra o Haiti? Até a sua lesão, jogou isolado na ponta e nada fez.
Mas ele fez uma partida razoável entre o meio e a ala esquerda contra o Egito, antes da Copa. E, nessa atual Data FIFA, participou de gols nas duas partidas que jogou, com uma assistência de escanteio no empate do primeiro jogo e um gol de pênalti no segundo, ambos contra a Austrália. Parou por aí mesmo, pois um edema na coxa o impediu de enfrentar a Índia no nosso próximo desafio.
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Fato curioso é que, nos três últimos jogos em que Raphinha participou diretamente de gols pela Seleção (Egito e os dois jogos contra a Austrália já citados), ele passou a maior parte do tempo se posicionando mais perto do meio, com liberdade para cair às laterais. Principalmente contra a Austrália eu considerei a atuação dele mais livre do que antes: sem ser espremido pelo jogo confuso do Paquetá ou pelas subidas desgovernadas do caminhão Casemiro.
Por sinal, outra observação a se fazer quanto à sua participação nesses amistosos diz respeito à sua finalização: Raphinha foi o destinatário final de grandes chances construídas e conseguiu desperdiçar todas. Sem exceção, todas. Só garimpou o pênalti. O atacante finalizou grande parte das jogadas com euforia e pouco parecia pensar em como transformar uma boa tentativa em gol de fato. Sinto que a ânsia pelo gol pareceu prejudicar a precisão do craque.
Desde a Copa do Mundo, parece que todo gol perdido pela seleção se transforma em gol feito pelo Barcelona.
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Estou implorando ao Carlitos para pesquisar a fundo nas raízes do futebol brasileiro por um meio-campo estável e seguro de si que consiga extrair o melhor do Raphinha. E, no auge da minha paciência e esperança, desejo que ele se recupere dessa lesão e volte voando aos gramados - pelo Barcelona e, principalmente, pelo Brasil.
Raphinha é, sim, craque. Mas um craque muito mal aproveitado na Seleção Brasileira por não ter seu jogo compreendido. Não se deve prender um leão numa jaula, muito menos um gatinho! Covardes!
Fonte e dados: SOFASCORE E TRANSFERMARKT
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