Fundadora da Amigos do Bem aponta erro mais comum das ONGs no Brasil
Em participação no Canal Livre, Alcione Albanesi explica que inchaço de estruturas consome recursos que deveriam chegar às ações sociais
A empresária e filantropa Alcione Albanesi avaliou, durante o programa Canal Livre que vai ao ar neste domingo, os desafios de gestão no terceiro setor e apontou a dependência excessiva de contratações como um dos principais entraves para a eficiência e sustentabilidade de projetos sociais no país.
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Segundo Alcione, a incapacidade de reter voluntários eleva os custos operacionais das entidades, fazendo com que verbas essenciais fiquem retidas na administração interna em vez de chegarem diretamente aos beneficiários na ponta. Ao ser questionada sobre governança e transparência, a dirigente detalhou a metodologia de trabalho adotada e analisou as falhas recorrentes no segmento:
“Nós desenvolvemos muito e trabalhamos muito com os voluntários. Voluntário dá um pouquinho de trabalho? Imagine: você faz voluntariamente, não é obrigação. Você faz por amor. Só que nós trabalhamos muito os voluntários e nós só conseguimos realizar pelos voluntários. Então, o voluntário se apresenta e eu falo: ‘Olha, se você quiser vir quando você quiser e fazer, você pode ter trabalhos pontuais. Mas se você assumir um departamento, você tem que assumir como se fosse uma empresa’”, explica.
Para a fundadora da ONG Amigos do Bem, o segredo do sucesso é trabalhar o desenvolvimento dos voluntários. “Eu vejo que muitas organizações não desenvolvem voluntariado e eles não mantêm os voluntários porque o problema também é esse: o voluntário começa e ele para. E no nosso caso, se eu ligar para agora e falar que preciso de mil voluntários em uma hora aqui nós vamos ter mil. Porque é o exemplo: eu sou a primeira a chegar e a última a sair. Eu trabalho muito. Ontem saí quase uma hora da manhã da mesa de reunião e amanhã vou trabalhar o dia todo e eu trabalho muito”, disse a empresária.
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“Eles (voluntários) fazem parte da história. Eles sabem que essa não é a história da Alcione. Eles fazem parte. E quando você se coloca como parte de algo, você assume a responsabilidade de algo. Eu vejo que muitas instituições não desenvolvem, não mantêm este voluntário. E aí você começa contratando. Então, o dinheiro que entra, que deveria ir para a ponta, ele para na estrutura. E aí começa a ter o problema, uma estrutura muito grande, um custo muito grande, um gasto muito grande, que não vai para a ponta. E aí as instituições começam a ter problemas”, afirmou Alcione, que diz ter voluntários em diversas áreas. “Nós temos agrônomos, engenheiros, todos voluntários. Todos os departamentos são voluntários que estão à frente”
Capacitação local e combate ao êxodo regional
A empresária também abordou a dificuldade crônica de atrair profissionais qualificados para áreas rurais isoladas e explicou a estratégia de formar a própria população atendida para assumir as operações e postos de liderança técnica. Conforme Alcione, a qualificação educacional cria oportunidades para que os moradores construam suas trajetórias nas próprias regiões de origem, evitando deslocamentos migratórios por necessidade:
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“Nós temos hoje uma geração transformada. Os multiplicadores do bem. Imagine uma coisa: 95% dos nossos professores do Centro de Transformação são as crianças que corriam no mato seco quando nós chegamos há 30 anos. Hoje são formadas, nós temos mais de 700 jovens formados. Se você vai na nossa logística, quem é o responsável, o gerente da nossa logística? É o jovem que se formou em logística. Todo o nosso trabalho são dos nossos jovens. Porque nós não temos quem contratar. Quem é que quer ficar numa área extremamente rural? A pessoa quer ir para as grandes capitais, quer ir para os grandes centros”, disse.
"Nós não temos mão de obra, nós não temos um mecânico, nós temos que formar. Essa necessidade também de nós formarmos, nos trouxe um alerta muito grande e uma atenção muito grande nos jovens, no futuro e na mudança. É formar para ficar, não formar para sair, senão não adianta. Eu garanto para vocês que todos gostariam de estar onde eles nascem, eu garanto. Nós temos que agradecer muito o Nordeste. O êxodo que houve para o Sudeste, por exemplo. Olha a colaboração deles para todo o Sudeste. Mas se eles tivessem oportunidade, eles ficariam nas terras deles, eles estariam crescendo lá. Porque é com a família. Vocês não têm ideia como o nordestino tem raiz."
O Canal Livre deste domingo tem como entrevistadores os jornalistas Fernando Mitre, Olívia Freitas e Andressa Guaraná. A apresentação é de Rodolfo Schneider. O programa vai ao ar domingo (16), às 20h na BandNews TV e, mais tarde, depois do ‘Som dos Oceanos’, na tela da Band.
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