Futebol brasileiro atinge recorde de jogadores africanos no país
A quantidade de jogadores estrangeiros está cada vez maior no Brasil

O futebol brasileiro vive uma temporada de expansão de fronteiras, com a grande chegada de atletas africanos. Veja a lista atualizada:
Continua depois da publicidade
- Loide Augusto (Angola) - Vasco
- Domingos Andrade (Angola) - Botafogo
- Francis Amuzu (Gana) e Jovane Cabral (Cabo Verde) - Grêmio
- Koné (Costa do Marfim) e Miguel Bilong (Camarões) - Palmeiras
- Benjamín (Gana) - Internacional
- Mamady Cissé (Guiné) - Atlético-MG
- Zakaria Labyad (Marrocos) - Corinthians
- Hakim Ziyech (Marrocos) - Botafogo
- Tchamba (Camarões) - Remo
- Yannick Bolasie (RD Congo) - Chapecoense
Até pouco tempo atrás, a presença de atletas do norte da África na elite do futebol brasileiro era considerada uma raridade. Em 2026, no entanto, os investimentos e a visibilidade global do Brasileirão transformaram o país em um destino atraente até para a chamada "geração de ouro marroquina".
Com mais um nome de fora do país, o Brasileirão passa a contar com 168 estrangeiros nos 20 clubes da Série A. Este número supera o recorde anterior da temporada 2025, que registrou 157 estrangeiros.
Além disso, até a última rodada, o Campeonato Brasileiro chegou a 179 estrangeiros utilizados na competição deste ano, superando os números de 2025, de acordo com dados do Transfermarkt.
Continua depois da publicidade
Deste total, sete são brasileiros com nacionalidade de outros países, o que ainda assim mantém o recorde no país.
Em 2003, quando a principal competição nacional passou a ser por pontos corridos, apenas 3 jogadores de outras nacionalidades podiam ser utilizados simultaneamente pelos clubes. A partir de 2014, esse número aumentou para 5, e em 2023, subiu para 7. A partir de 2024, após aprovação por unanimidade pelos clubes, o limite passou a ser de 9 atletas estrangeiros relacionados por jogo.
Atualmente, o país que mais fornece jogadores estrangeiros ao país é a Argentina, com 47. É seguido pelo Uruguai, com 32, Colômbia, com 27, Paraguai, com 13, e Equador, com 10. Chama a atenção a grande quantidade de jogadores da Europa e África, 30 no total, sendo 18 europeus e 12 africanos. Entre os europeus, o recorde é de atletas portugueses, 7 no total, seguido por italianos e espanhóis, com 3 cada um.
Continua depois da publicidade
Entre os times com mais jogadores de fora do país, o Vasco encabeça a lista, com 13, seguido por Botafogo (12), Athletico-PR, Grêmio, Fluminense, Flamengo, Internacional e Palmeiras (11), São Paulo, Bahia, Cruzeiro e Atlético-MG (9), RB Bragantino (8), Santos e Corinthians (7), Remo, Vitória, Coritiba e Chapecoense (5). O Mirassol não possui nenhum estrangeiro.
"Com o fluxo cada vez maior de atletas brasileiros saindo para o exterior, o Brasil também passou a assumir um papel mais forte como comprador. A necessidade de repor essas saídas aumentou bastante na última década, fazendo com que jogadores da América do Sul, da América Central e também de mercados como Europa e África passassem a ser mais requisitados pelos clubes brasileiros. É um movimento natural de oferta e demanda e que acompanha uma tendência mundial. Ao mesmo tempo, é preciso ter cuidado para que esse crescimento não comprometa a formação e o desenvolvimento dos jogadores brasileiros. Cada país procura proteger sua reserva de mercado de acordo com as suas necessidades, e acredito que esse também deve ser um ponto de atenção para o futebol brasileiro”, comenta Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy.
"O Brasil voltou a ser uma vitrine atrativa. Clubes daqui têm conseguido oferecer bons contratos e uma projeção esportiva que não deixa de ser estratégica. Para muitos atletas jovens, ficar ou retornar significa jogar em alto nível, estar mais próximo da seleção e ainda garantir segurança financeira, algo que, no passado, só o futebol europeu parecia proporciona", acrescenta Claudio Fiorito, presidente da P&P Sport Management Brasil, especializada no gerenciamento da carreira de atletas.
Continua depois da publicidade
“Nos últimos anos, o futebol brasileiro deixou de ser apenas um exportador de talentos e passou a se posicionar também como um mercado estratégico dentro da cadeia global do esporte. Hoje, os clubes estão mais organizados, as competições mais estruturadas e a exposição internacional muito maior. Isso faz com que o Brasil se torne uma vitrine atrativa para atletas de diferentes países, que enxergam aqui competitividade, visibilidade e potencial de valorização”, afirma Alexandre Frota, CEO da FutPro Expo, evento inédito direcionado para negócios no futebol.
Marcos Casseb, sócio da Roc Nation Sports Brazil, que gerencia a carreira de centenas de atletas, deixa claro que existe uma demanda real por qualidade competitiva, mas ela é amplificada pela regra que facilita a entrada de estrangeiros e pelos fatores financeiros e de visibilidade do mercado brasileiro.
"É o resultado de uma combinação de competitividade com aproveitamento de oportunidade de mercado. A busca por um campeonato mais competitivo, por títulos continentais e resultados imediatos fez com que o Brasil olhe mais para fora, e o lucro pela valorização de jogadores estrangeiros é na maioria das vezes muito maior que dos brasileiros", explica.
Continua depois da publicidade
Para Casseb, um detalhe importante a ser colocado é a visibilidade que o Brasil fornece a esses atletas sul-americanos. Segundo ele, ao contrário das principais ligas europeias, o Brasil não é o destino final de grande parte deles.
"O Brasil é, na maioria das vezes, o mercado intermediário, principalmente os que fazem sucesso por aqui. Outro fator importante é que o Brasil proporcionalmente não paga tão alto pelos jogadores sulamericanos como na Premier League, por exemplo, facilitando a venda deles. Os grandes brasileiros não tem tantos concorrentes no continente quanto os ingleses, que competem com clubes como Real Madrid, Barcelona, Bayer, PSG, entre muitos outros."
Com experiência de mais de 20 anos no mercado de transferências de atletas, Casseb também entende muitos jogadores sul-americanos alegam que atuar no Brasil é uma boa oportunidade de chegarem às suas respectivas seleções.
Continua depois da publicidade
"Eu diria que, dentro do ecossistema sulamericano, não é exagero afirmar que o Brasil hoje exerce um papel semelhante ao da Premier League em relação à Europa periférica. Ele atrai, desenvolve, expõe e vende melhor. Um exemplo é que o Brasileirão teve mais jogadores convocados na seleção do Uruguai do que a própria liga inglesa em determinado momento das Eliminatórias, mostrando que atuar no país dá relevância futebolística continental", diz.
Segundo Moisés Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças do esporte, esse cenário não é obra do acaso: “a evolução da receita de clubes brasileiros nos últimos anos, em especial por meio de direitos de televisão e patrocínios, criou um novo patamar de investimento. Hoje, times do Brasil conseguem negociar e até competir com clubes europeus por nomes de alto nível, algo impensável há menos de uma década”, explica Assayag, que ressalta ainda a importância de um mercado interno mais estruturado em relação a muitos vizinhos sul-americanos, a ponto de patrocínios e premiações no Brasil superarem em muito valores equivalentes na Argentina e outros mercados da América do Sul.
Nos últimos anos, o futebol brasileiro passou a competir com o futebol europeu ao trazer alguns nomes importantes que vinham atuando no futebol europeu, liderados, é verdade, por uma parcela de clubes com maior poderio financeiro. Neste momento, a negociação mais quente envolve retorno de Lucas Paquetá ao Flamengo, por cifras que ultrapassam os 42 milhões de euros (R$ 260 milhões) junto ao West Ham e se tornaram a maior transação da história do país.
Continua depois da publicidade
Número de atletas africanos cresce no Brasil; Para especialistas, trata-se de uma opção economicamente viável e com grande potencial técnico
Nesta temporada, chamou a atenção o fato de o Palmeiras, um dos clubes mais ricos do país, anunciar a contratação de três promessas africanas: os zagueiros Koné, da Costa do Marfim, e Tiecoura Konaté, de Mali, além do atacante Miguel Bilong, de Camarões. Embora tenham chegado inicialmente para servir às categorias de base, Koné e Bilong já integram os treinos do elenco principal desde o fim da Copa do Mundo, tornando-se opções imediatas para o técnico Abel Ferreira.
Esse movimento do clube paulista de enviar observadores a países como Gana, Senegal, Mali e Costa do Marfim ocorre desde 2023. O processo repete uma estratégia consolidada há décadas na Europa, onde a captação de jovens talentos africanos funciona como uma via crucial de intercâmbio esportivo, técnico e econômico, estruturada por meio de parcerias com academias locais.
Continua depois da publicidade
"A busca por talentos ultrapassou as fronteiras tradicionais. O futebol africano é um celeiro inestimável de atletas com enorme potencial técnico e físico. O mercado europeu já entendeu o valor dessa integração há anos, e ver o Palmeiras liderar esse movimento no Brasil mostra uma maturidade de captação exemplar. É uma relação de benefício mútuo. O clube oxigena suas categorias de base com novos perfis de jogo e oferece a esses jovens uma vitrine global", analisa Claudio Fiorito, CEO da P&P Sport Management, empresa que administra a carreira de mais de 150 jogadores ao redor do mundo, entre eles o zagueiro Vitor Reis, do Manchester City, e do centroavante belga Romelu Lukaku, do Napoli.
Atualmente, 12 atletas oriundos da África estão na Série A do Brasileirão. Alguns, mais midiáticos, casos do atacante Zakaria Labyad, do Corinthians, que apesar de ter nascido nos Países Baixos, é naturalizado marroquino; do atacante Yannick Bolasie, da Chapecoense e já há algum tempo no Brasil, nascido na França, mas naturalizado congolês; do atacante Francis Amuzu, do Grêmio, que é naturalizado belga, mas nascido em Gana, e da mais recente contratação do Atlético-MG, o atacante Mamady Cissé, de Guiné.
O fluxo seguiu intenso na última semana com novos anúncios. O São Paulo oficializou o lateral Aurélio Buta, nascido em Angola e capaz de atuar em ambos os lados do campo. Já o Grêmio trouxe o atacante Jovane Cabral, que disputou a última Copa do Mundo pela seleção de Cabo Verde.
Continua depois da publicidade
Além deles, completam a lista na elite nacional o meio-campista Benjamin Arhin (Internacional/Gana), o meia Domingos Andrade (Botafogo/Angola) e o zagueiro Tchamba (Remo/Guiné-Bissau).
Para Roger Machado, treinador e professor da CBF Academy, com o fluxo cada vez maior de atletas brasileiros indo para o exterior, o país também passou a atuar com mais força como comprador, buscando alternativas para repor essas saídas.
"Nesse contexto, o mercado africano aparece como uma opção economicamente viável e com grande potencial técnico, como as últimas Copas do Mundo já mostraram. Mas não basta identificar o talento: é preciso criar um processo de adaptação cuidadoso, levando em conta língua, alimentação, hábitos culturais e o impacto de estar distante do ambiente de origem. A África reúne 54 países, com realidades muito diferentes, e essa diversidade precisa ser compreendida. Além disso, os clubes brasileiros terão de competir com a Europa, que há muitos anos observa e investe nos talentos do continente", explica.
Continua depois da publicidade
Embora o Brasil viva a sua temporada com o maior número de atletas africanos na história, as cifras locais ainda são tímidas quando comparadas às ligas europeias. Na Ligue 1 (primeira divisão da França), por exemplo, há 128 jogadores inscritos de origem africana. Todos os 18 clubes da elite francesa possuem ao menos um atleta do continente em seus elencos. A maioria provém de Senegal — seleção que faturou a Copa Africana de Nações em 2025, mas teve o título revogado recentemente em favor do Marrocos, que por sua vez conta com 17 representantes no futebol francês.
Para Alexandre Frota, CEO da FutPro Expo, a chegada de atletas africanos pode representar ganhos que vão além das questões técnicas, mas também comerciais. "O futebol é uma das maiores indústrias de entretenimento do mundo. Ao trazer talentos africanos, o Palmeiras e outros clubes vão além dos ganhos técnicos; eles expandem as marcas, conectam continentes e atraem novos públicos, tornando o espetáculo muito mais valioso e atraente para o mercado global", afirma.
"Iba Ly é um atleta que acompanho desde a base do São Paulo, e que teve uma boa passagem pelo Retrô recentemente. Possui muita força física, alto nível de disciplina tática e qualidade com a bola. Esse conjunto de atributos é muito marcante em atletas de origem africana, que hoje ganham cada vez mais prestígio no futebol europeu justamente por aliarem potência, inteligência tática e qualidade técnica. São jogadores competitivos, consistentes e com grande capacidade de adaptação, por isso gosto de acompanhar de perto esse perfil de atleta, que segue em constante valorização no cenário internacional", aponta Lucas Andrino, executivo de futebol do Juventude.
Continua depois da publicidade
O ecossistema de captação no Brasil também começa a se ramificar para divisões inferiores. Somadas as Séries B, C e D, o país registra outros 15 profissionais africanos. A maior colônia está na Nigéria, com cinco atletas, seguida por Camarões, Gana e Senegal, com dois representantes cada. Um exemplo claro dessa engrenagem é o volante senegalês Iba Ly, de 23 anos, que pertence ao São Paulo e disputa a temporada emprestado ao Juventude.
Fique por dentro das últimas
notícias
