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Patrocínio indesejado? A polêmica dos apps adultos em uniformes esportivos

Após as bebidas, os cigarros e as bets, agora são as plataformas adultas que chegam aos esportes. Por que este ramo tem desejado participar do aporte financeiros de clubes no Brasil?

5 min

18/08/2026 05:00 • Atualizado há 14 dias

Patrocínio indesejado? A polêmica dos apps adultos em uniformes esportivos

Quais tipos de empresas podem patrocinar um time de futebol? Ao longo dos anos, clubes brasileiros receberam aportes ligados a ramos variados, não relacionados ao esporte, como bebidas alcoólicas, tabaco e, mais recentemente, as casas de apostas.

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Uma nova camada para essa questão foi aberta em junho deste ano, quando o Corinthians anunciou uma parceria comercial com a Fatal Fans, uma plataforma de conteúdo adulto via assinatura.

O novo patrocinador tem contrato vigente com o clube até o fim de 2027, e o contrato celebrado tem valor de R$ 22 milhões. O presidente do Corinthians, Osmar Stabile, afirmou que se trata do maior contrato da história das modalidades poliesportivas do time e que o aporte seria investido não só no futebol quanto no futsal e basquete.

Na época do anúncio, as redes sociais foram tomadas por postagens de pessoas preocupadas, sobretudo com a associação de uma plataforma de conteúdo erótico em um ramo com forte aderência de crianças e adolescentes.

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A Fatal Fans é uma nova empresa gerida pela Fatal Model, que oferece serviços de acompanhante e já patrocina outros times: o Clube do Remo e o Vila Nova. A proposta da nova plataforma é competir com gigantes do mercado adulto digital, como OnlyFans e Privacy.

A principal preocupação está relacionada ao logotipo da marca, que fica estampado com grande destaque na camisa do futebol masculino. A Fatal Fans também está sendo divulgada no calção da equipe masculina, na traseira da camisa do basquete e na barra inferior da camisa do futsal. O uniforme do time feminino de futebol não terá o logo da marca estampado e o espaço ficará reservado a mensagens de apoio a mulheres.

Os argumentos apontaram que o vínculo e a exposição constante a este tipo de marca poderiam ser danosos para menores, o que inspirou projetos de lei a níveis estaduais e federais, além de representações junto ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) e ao Governo Federal.

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O que diz a lei?

A Lei de Incentivo ao Esporte não especifica quais tipos de segmento podem ou não patrocinar um time de futebol. Ary Rocco, professor de Gestão de Esporte da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP), explica que não é por acaso que as empresas busquem o futebol para injetar dinheiro e, consequentemente, divulgar suas marcas.

Empresas de segmentos que não são bem vistos socialmente vão querer se aproveitar da visibilidade do futebol para angariar visibilidade e tentar conseguir uma imagem mais positiva. --professor Ary Rocco

O advogado Leonardo Braga Moura, especializado em direito empresarial, proteção de dados e tecnologia e inovação, explica que estes negócios se apropriam do peso simbólico e da plataforma poderosa de comunicação do esporte para construir reputação. “Quando uma marca estampa a camisa de um grande clube, ela passa a integrar o imaginário coletivo e a compartilhar parte dos valores associados àquela instituição”, explica.

Paralelamente, Rocco relaciona a aderência à maneira como a gestão do futebol se desenrola no Brasil. Por mais que cite exemplos positivos, como Flamengo e Palmeiras, os clubes acumulam dívidas milionárias. A prioridade maior acaba sendo o de quitar as dívidas, sem necessariamente considerar o impacto cultural e comportamental em torno da relação comercial ou do time.

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“Esse tipo de zelo não existe na maior parte das organizações esportivas brasileiras”, analisa Rocco. "A gestão do futebol brasileiro é majoritariamente amadora e muito mais preocupada com ganhar visibilidade, promoção e benefícios pessoais do que garantir o funcionamento da organização esportiva. Os gestores não têm o preparo adequado e não conseguem entender a importância do esporte e das organizações que administram para a sociedade brasileira.”

Ao envolver empresas com restrição de idade em clubes de ampla projeção infanto-juvenil, Leonardo Braga Moura pondera que o ideal seria ter mais cautela. “A preocupação está no acesso imediato ao serviço e na familiarização precoce com marcas de segmentos exclusivamente adultos.”

O debate não é apenas sobre poder ou não poder celebrar o contrato, mas quais cuidados adicionais devem ser adotados quando a comunicação alcança um público composto também por menores de idade. --advogado Leonardo Braga Moura

Regulação e publicidade responsável

Moura explica que a discussão não tem se restringido ao Brasil. Países como Reino Unido, Itália, Espanha e Bélgica têm deliberado ou restringido formas de publicidade envolvendo setores sensíveis no esporte, sobretudo devido ao possível impacto em menores de idade.

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O advogado pensa que impedir esse tipo de patrocínio não é a única solução. Ele aponta que medidas de mitigação que reduzem a exposição de crianças e adolescentes para, ao mesmo tempo, preservar a liberdade da iniciativa privada e a atividade econômica lícita. Entre as sugestões de Moura estão:

  • Limitações à exposição da marca em produtos destinadas ao público infantil (como em uniformes);
  • Campanhas de comunicação segmentadas para maiores de idade;
  • Restrições ao uso da marca em ações promocionais voltadas a crianças;
  • Cuidados adicionais nas redes sociais do clube;
  • Proibição de ativações que estimulem a interação de menores com serviços destinados exclusivamente ao público adulto.

"Também é possível imaginar compromissos de autorregulação assumidos pelos próprios clubes e patrocinadores, com políticas claras de publicidade responsável", diz. Além da regulamentação estatal, Ary Rocco também cobra que entidades reguladoras esportivas —como a Confederação Brasileira de Futebol (CBF)— reformulem a maneira de encabeçar a captação de recursos.

Para ele, são essas instituições que têm poder dentro do sistema esportivo para, de alguma maneira, educar ou limitar este tipo de atuação de empresas.

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Entidades reguladoras deveriam se preocupar com o futebol como um todo, mas o que vemos é que esses clubes e gestores administrativos não estão preocupados com a gestão de patrocínio. O interesse está apenas no dinheiro que vai entrar, não na qualidade do patrocínio ou na imagem do produto futebol junto à sociedade. --professor Ary Rocco

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