Cafés de Buenos Aires: os clássicos por trás do charme portenho
Buenos Aires construiu parte de sua identidade entre livros e mesas de café. A literatura ocupa um lugar tão visível na cidade que livrarias, escritores e

Buenos Aires construiu parte de sua identidade entre livros e mesas de café. A literatura ocupa um lugar tão visível na cidade que livrarias, escritores e cafés acabam fazendo parte do mesmo roteiro cultural. Jorge Luis Borges é talvez o nome argentino que melhor simboliza essa ligação. Frequentador do Café Tortoni, costumava tomar café e encontrar amigos no endereço que atravessou gerações e permanece como uma das referências da vida portenha.
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Essa relação continua longe dos museus. No El Ateneo Grand Splendid, instalado em um antigo teatro na Avenida Santa Fe, as estantes ocupam o espaço onde ficavam as poltronas e o antigo palco abriga um café. A Eterna Cadencia, em Palermo, reúne mais de 40 mil títulos e funciona também como editora, bar e ponto de encontro. Livros del Pasaje e projetos independentes espalhados pelos bairros reforçam um hábito que ganhou novo impulso: escolher uma livraria também pelo tempo que se pode passar dentro dela.
Os cafés clássicos levam essa história ainda mais longe. Fundado em 1858, o Café Tortoni conserva vitrais, mármores, madeira e parte do ritual de atendimento que o transformou em uma instituição local. Borges passou por suas mesas, assim como a poeta Alfonsina Storni e artistas ligados ao tango. A ligação entre literatura e café aparece também no London City, onde Julio Cortázar escreveu parte de Los Premios. Uma mesa do local mantém sua memória associada ao escritor.
Buenos Aires criou inclusive uma categoria oficial para proteger estabelecimentos que representam esse patrimônio. Os chamados Bares Notables são reconhecidos por sua arquitetura, antiguidade, relevância cultural ou relação com a história dos bairros. Em agosto, 12 endereços foram incorporados ao programa, elevando o catálogo para 90 estabelecimentos.
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Entre os clássicos está a Confitería Las Violetas, em Almagro, conhecida pelos vitrais, colunas e grandes salões que preservam a atmosfera das antigas confeitarias portenhas. A Confitería La Ideal, inaugurada em 1912, recuperou seu esplendor depois de uma extensa restauração e mantém a arquitetura de inspiração francesa, com vitrais e ornamentação que remetem à Belle Époque.
El Federal apresenta uma Buenos Aires diferente. O endereço de San Telmo nasceu no século 19 e conserva balcão, madeira, garrafas e objetos que lembram os antigos armazéns e bares de bairro. Já Los 36 Billares, aberto em 1894 na Avenida de Mayo, guarda a tradição dos salões onde café, bilhar e conversa dividiam o mesmo espaço.
A cultura não ficou congelada nesses endereços. Buenos Aires continua incorporando cafés aos hábitos contemporâneos, inclusive dentro de livrarias, enquanto preserva lugares onde escritores, músicos, artistas, trabalhadores e moradores construíram parte da memória coletiva da cidade.
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Talvez seja justamente essa continuidade que explique o charme portenho. Em Buenos Aires, sentar para tomar um café raramente se resume à bebida. A mesa pode estar dentro de uma livraria, diante de um vitral centenário ou no mesmo salão frequentado por Borges.
O café funciona como endereço cultural, lugar de conversa e uma das maneiras mais simples de entrar na história da cidade.
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