Brasil
Brasil

As Sutis Curvas do Preconceito

Toda vez que alguém emagrece, as redes sociais repetem o mesmo ritual. "Nossa, como você ficou lindo." "Nossa, como você ficou linda." "Agora você está maravilh

5 min

28/07/2026 21:13 • Atualizado há 34 dias

As Sutis Curvas do Preconceito

Toda vez que alguém emagrece, as redes sociais repetem o mesmo ritual. "Nossa, como você ficou lindo." "Nossa, como você ficou linda." "Agora você está maravilhoso." "Agora você está maravilhosa." "Que diferença." Repare que quase nunca os elogios são sobre saúde. Quase nunca alguém diz... "Que bom que seus exames melhoraram." Ou, "Que bom que você está vivendo com mais qualidade." Não. Os aplausos quase sempre são para um padrão estético. E isso diz muito mais sobre quem elogia do que sobre quem emagreceu. Porque, sem perceber, a mensagem enviada para quem continua acima do peso é cruel... "Agora você ficou bonito." "Agora você ficou bonita." Antes de continuar, eu queria pedir uma coisa. Leia o próximo parágrafo sem pressa. E, principalmente, sem preparar uma resposta para se defender. Apenas reflita.

Continua depois da publicidade

Em que momento da nossa história nós decidimos que o formato de um corpo seria capaz de determinar o valor de um ser humano? Em que momento uma silhueta passou a definir quem merece ser admirado, desejado, respeitado, contratado, ouvido ou simplesmente aceito? Quando foi que alguns quilos a menos passaram a ter mais força do que anos de caráter, de honestidade, de inteligência, de competência, de fé, de generosidade e de amor ao próximo?

É assustador perceber que, para muita gente, basta um corpo mudar para que a mesma pessoa passe a ser vista como mais interessante, mais bonita, mais disciplinada e até mais digna de elogios. Mas a verdade é que o corpo mudou e a essência já estava lá. Talvez o problema nunca tenha sido a gordura. Talvez o problema seja a superficialidade com que aprendemos a medir o valor das pessoas. Porque uma sociedade que coloca uma silhueta acima de um fundamento está dizendo, ainda que em silêncio, que a aparência vale mais do que a história, que a estética vale mais do que a ética, que um espelho vale mais do que um coração. E isso deveria nos assustar muito mais do que qualquer número que aparece na balança. Se você chegou até aqui, faça um exercício de honestidade. Pense nas pessoas que você mais admira na vida. Agora responda para si mesmo... você as ama pelo tamanho da cintura... ou pela grandeza da alma? Mas e quem não consegue emagrecer? Quem luta há anos contra ansiedade, compulsão alimentar, depressão, alterações hormonais, genética, medicamentos, metabolismo, traumas ou simplesmente contra uma doença chamada obesidade? É muito confortável chamar essas pessoas de preguiçosas, sem vergonha ou acomodadas. O difícil é admitir que a obesidade é uma doença complexa e que ninguém conhece a guerra silenciosa que o outro enfrenta quando fecha a porta de casa. Quando você decide compartilhar seu processo de emagrecimento, você tem todo o direito de comemorar. Deve comemorar. Mas existe uma honestidade que faria muito bem às redes sociais. Se foi com cirurgia bariátrica, diga. Se foi com Mounjaro ou outra medicação, diga. Se foi apenas com alimentação, treino e uma disciplina quase sobre-humana, diga também. Talvez esse seja o caminho mais difícil de todos. Não existe vergonha em nenhum desses caminhos. Vergonha é vender a ilusão de que bastou "força de vontade", enquanto milhares de pessoas se sentem fracassadas por não conseguirem repetir uma história que nunca foi contada por inteiro. Eu falo com alguma propriedade... Já fui enorme. Já emagreci muito. E já voltei a ficar enorme. Também já consegui perder peso apenas fechando a boca e fazendo exercícios. Naquela época eu ainda tinha uma disposição mental que hoje simplesmente não tenho. Aquele Alê magro, disciplinado e obstinado... faz tempo que não aparece pelas redondezas. E não, isso também não foi um trocadilho com o meu formato atual. Hoje eu sei que voltar àquele corpo sem bariátrica ou sem as chamadas "canetas mágicas" talvez nem esteja no meu horizonte. E tudo bem admitir isso. O que não está tudo bem é continuar tratando pessoas gordas como projetos inacabados de seres humanos. Então, da próxima vez que você encontrar um homem ou uma mulher que emagreceu, elogie com cuidado. Porque, muitas vezes, no meio da felicidade por ver alguém mais magro, escapa um preconceito que sempre esteve aí, apenas esperando uma oportunidade para se disfarçar de elogio.

Escrevo isso pensando em homens e mulheres, porque ambos sofrem com a ditadura da aparência. As mulheres, historicamente, carregam uma pressão estética muito maior e mais cruel. Os homens também sofrem, mas, na maioria das vezes, foram ensinados a esconder essa dor. Enquanto continuarmos chamando de beleza aquilo que, na verdade, é apenas magreza, continuaremos adoecendo pessoas.

Continua depois da publicidade

Talvez esteja na hora de pararmos de celebrar corpos menores e começarmos a celebrar pessoas que seguem vivas, lutando e tentando, independentemente do número que aparece na balança, da quantidade de canetas que precisaram usar, dos órgãos que tiveram de ser parcialmente removidos em uma cirurgia ou dos 20 mil passos diários que precisaram dar para chegar até ali. Porque cada corpo carrega uma história. E nenhuma delas deveria ser reduzida a um simples: "Nossa... como você ficou mais bonito." Ou: "Nossa... como você ficou mais bonita."

Mas eu ainda quero terminar com uma última reflexão. No fim das contas, o tempo fará aquilo que nenhum espelho consegue impedir. A pele vai enrugar. Os músculos vão embora. A cintura deixará de existir. O cabelo embranquecerá. A beleza que hoje tanta gente idolatra será devolvida ao tempo, porque ela nunca nos pertenceu de verdade. Então me responda... se tudo isso é inevitavelmente passageiro, por que insistimos em medir o valor de uma vida por algo que desaparecerá? No fim, todos nós teremos exatamente o mesmo destino. Seremos ricos e pobres. Magros e gordos. Fortes e frágeis. Bonitos e feios. Todos reduzidos à mesma condição.

Todos seremos apenas caveiras vestindo um elegante terno de madeira.

Continua depois da publicidade

Talvez esteja na hora de investirmos menos naquilo que o tempo inevitavelmente levará... e muito mais naquilo que nem a morte consegue sepultar e que tem feito muita falta nos dias de hoje... o caráter, a bondade, a compaixão, a honestidade e o amor que deixamos nas pessoas. Porque, quando a tampa desse último terno se fechar, ninguém perguntará qual era o número da sua calça. Ninguém perguntará quanto você pesava. Ninguém perguntará se você fez bariátrica, usou canetas, qual frequência que ia a academia ou se estava em dia com meus 20 mil passos diários... Mas muita gente lembrará de como você fez cada pessoa se sentir. No fim, nunca foi sobre o tamanho da cintura. Sempre foi sobre o tamanho da alma e da largura do seu sorriso sincero.

A obesidade não é falta de caráter. O preconceito, muitas vezes, é.

Seguir a Band no Google
As Sutis Curvas do Preconceito