Lavar a Égua
O que revela a inteligência de alguém é uma simples pergunta feita na hora certa

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Era setembro de 1988.
O Brasil respirava democracia.
Faltavam poucas semanas para as eleições municipais e, no ano seguinte, os brasileiros escolheriam o primeiro presidente pelo voto direto depois de quase três décadas.
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Naquele período eu integrava a equipe que produzia programas eleitorais do então candidato a prefeito de Campinas pelo recém-criado PSDB, Valderlei Simionato.
Em determinado momento da campanha, a coordenação conseguiu trazer um reforço de peso.
O senador Mário Covas.
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A missão era simples: gravar um depoimento de apoio ao candidato campineiro.
Covas chegou sorridente, cumprimentou a equipe e foi direto conversar com os coordenadores da campanha.
Ouviu atentamente as explicações sobre a cidade, os projetos e as propostas de governo.
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Quando terminaram, decretou:
— Podemos gravar.
O diretor da campanha, João Batista Olivi, imediatamente colocou a equipe em movimento.
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Posições definidas.
Câmera ajustada.
Silêncio no estúdio.
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Orientações passadas.
Tudo pronto.
Ao receber o sinal de gravação, Covas caminhou pelo cenário e gravou o texto inteiro de uma só vez.
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Sem tropeçar.
Sem interromper.
Sem errar um nome.
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Sem pedir uma segunda tentativa.
A equipe se entreolhou.
Aquilo não era exatamente comum.
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Quem trabalhava com gravações políticas já estava acostumado a repetir o mesmo texto várias vezes.
João Batista, precavido, sugeriu:
— Senador, vamos gravar mais uma por segurança?
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Covas balançou a cabeça.
— Se essa ficou certa, não precisa outra.
E ficou por isso mesmo.
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Pouco antes de deixar o estúdio para acompanhar o candidato pelas ruas da cidade, um editor contratado pela campanha comentou, animado:
— Nossa... imagine esse homem candidato a presidente no ano que vem. Com mais recursos de campanha e chance de vitória... vamos lavar a égua!
Covas, que já se afastava, parou.
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Olhou para o rapaz.
E perguntou com absoluta naturalidade:
— Lavar a égua? Por acaso vocês vão trabalhar em um circo?
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A gargalhada foi geral.
A gravação terminou.
A agenda continuou.
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Mas a resposta atravessou os anos.
Na comunicação, costumamos admirar os grandes discursos, os argumentos elaborados e as frases históricas.
Mas, às vezes, o que revela a inteligência de alguém é uma simples pergunta feita na hora certa.-----
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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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