Mudanças climáticas podem aumentar frequência e intensidade de tornados no Brasil
Tecnologias com uso de Inteligência Artificial podem ajudar a evacuar áreas com alertas antecipados

O tornado que destruiu 90% de Rio Bonito do Iguaçu e outras cidades da região central do Paraná, provocou seis mortes e deixou 750 feridos, deveria servir como alerta de “desespero e urgência” para as autoridades reunidas da Conferência das Nações Unidas para o Clima (COP-30), defendeu o secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini. O evento começa nesta segunda-feira (10) e vai até o dia 21 de novembro, em Belém (PA).
Continua depois da publicidade
“O que aconteceu no Paraná, que é triste e grave, é mais uma repetição do que vem acontecendo não apenas no Brasil, na Amazônia, no Rio Grande do Sul, em São Sebastião, em Petrópolis, no norte de Minas, sul da Bahia, como no mundo inteiro também", destacou.
Astrini destacou que o tema mudanças climáticas e a ocorrência de eventos extremos cada vez mais frequentes será recorrente durante o evento, mas o tema precisa de ações mais concretas e políticas de planejamento de enfrentamento às mudanças climáticas pelas cidades e estados. "Os últimos 10 anos foram os mais quentes da história. Tudo isso deveria entrar para dentro da Conferência do Clima, mas, muitas vezes, o que a gente vê é que a reunião fica impermeável ao mundo real”, criticou Astrini, que representa a principal rede da sociedade civil brasileira com atuação sobre as mudanças climáticas.
Segundo ele, o evento extremo climático que ocorreu no Paraná na última sexta-feira (7) deve ser citado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura oficial da COP, nesta segunda-feira (10) e que essa “realidade” ajude a sensibilizar os países participantes sobre “o mundo real, que está agonizando”.
Continua depois da publicidade
“A gente têm alguns países que são mais vulneráveis a essa situação, como o Brasil, que depende da agricultura, a geração da nossa energia depende da regularidade climática, com as hidrelétricas. O presidente Lula deve fazer a abertura, pode ser que ele cite. A gente sempre espera que essas citações e essas realidades tenham efeito lá pra dentro”, complementa.
Frequência de eventos climáticos extremos
Os tornados e eventos climáticos extremos tendem a aumentar nos próximos meses, de acordo com a oceanógrafa Renata Nagai, pesquisadora da Universidade de São Paulo. "Tornados, como o que atingiu Rio Bonito do Iguaçu, não acontecem apenas por causa das mudanças climáticas, mas o desequilíbrio do clima pode contribuir para que eles sejam mais frequentes e intensos. “As mudanças climáticas estão associadas a um aporte de combustíveis fósseis e de gases de efeito estufa na atmosfera e isso aumenta a energia, causando o aquecimento da atmosfera e também dos oceanos. Esse aumento do calor provoca também o aumento da umidade, pela evaporação. Mais calor e mais umidade servem quase como um combustível para esses eventos meteorológicos extremos”
De acordo com o Eugênio Greghi, meteorologista da FIeldPRO, empresa que utiliza até Inteligência Artificial (IA) para prever o clima, a intensificação dos eventos extremos no decorrer dos próximos meses tende a aumentar também devido à aproximação do verão, quando tradicionalmente chove mais no Brasil. “Com a consolidação da estação chuvosa, aumenta a frequência de sistemas convectivos e as frentes frias que favorecem a ocorrência de tempestades severas e chuvas com altos acumulados em um curto período de tempo", explica. Segundo a FieldPRO, as regiões mais afetadas serão o norte da região sul, sudeste, centro-oeste e interior do nordeste”, afirma.
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, os eventos extremos muitas vezes são antagônicos — enquanto algumas áreas enfrentam estiagens e temperaturas elevadas, outras registram chuvas excessivas e inundações. Esse comportamento é reforçado pela atuação de fenômenos climáticos interanuais e de variabilidade oceânica e atmosférica.
Continua depois da publicidade
O que são tornados?
A A oceanógrafa Renata explica que tornados são colunas de ar que giram em altíssima velocidade, formadas a partir de nuvens de tempestades. Apesar de serem rápidos e de pequena extensão, podem ter grande poder destrutivo, ao tocarem o solo. O fenômeno é favorecido pela alta umidade e pelo ar quente.
O professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Michel Mahiques afirma que esse tipo de formação pode se tornar mais comum. "Tornados, como o que aconteceu no Paraná, ocorrem por conta de grandes diferenças de pressão, causadas por massas de ar com propriedades muito diferentes, como a temperatura. Agora, com as mudanças climáticas, essas diferenças se intensificam, e a possibilidade de ocorrer eventos extremos como esse aumenta"
Influência de La Niña
Outro fator que está, atualemnte, influenciando o clima é a ocorrência do fenômeno La Niña, já confirmado por autoridades globais. “O fenômeno La Niña, combinado à fase negativa do Dipolo do Oceano Índico e à fase negativa da Oscilação Antártica, favorece um padrão atmosférico que potencializa a formação de corredores de umidade — sistemas meteorológicos responsáveis por episódios prolongados de chuva intensa entre o Norte e o Sudeste. Além disso, espera-se maior frequência de avanço de frentes frias sobre o centro-sul do país, o que pode intensificar a ocorrência de eventos extremos de chuva”, diz Greghi.
Continua depois da publicidade
Segundo a FieldPRO, o La Niña deve influenciar o clima no Brasil até pelo menos fevereiro de 2026. O Rio Grande do Sul (ao contrário dos anos anteriores, influenciado pelo El Niño), deve registrar mais irregularidade de chuva e alguns episódios de calor intenso. Já Santa Catarina, Paraná, grande parte do Sudeste e do Centro-Oeste tendem a enfrentar mais episódios de chuvas significativas e temperaturas abaixo da média. Na Região Norte, o início do período chuvoso deve ser levemente atrasado, mas a expectativa é de volumes acima da média em diversos pontos ao longo da estação.
Embora o La Niña atual seja classificado como de fraca intensidade, sua interação com um ambiente oceano-atmosfera aquecido pelas mudanças climáticas antrópicas pode amplificar o número e a severidade dos eventos extremos, aumentando riscos para populações e setores sensíveis. “É fundamental que gestores públicos e privados disponham de um Plano de Enfrentamento das Mudanças Climáticas — um documento estratégico com diretrizes, metas e ações voltadas à redução de riscos e à construção de resiliência”, destaca Mariana Vianna, especialista em mudanças climáticas da FieldPRO.

Inteligência Artificial ajuda a evitar desastres como o do Paraná
O tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu poderia ter tido impactos menos severo caso o município ou o estado tivesse lançado mão de sistemas que utilizam ferramentas tecnológicas como a Inteligência Artificial e Internet das Coisas (IoT) para as previsões climáticas. Nesses casos, a IA é capaz de alertar com até 36 horas eventos climáticos. “Nesse cenários, o uso e a aplicação da Inteligência Artificial (IA) no enfrentamento climático podem reduzir os riscos consideravelmente, atuando em monitoramento e previsão, gestão de risco e resiliência, saúde e qualidade de vida, mobilidade, energia e recursos naturais”, diz Vianna. “O modelo [de previsão do tempo com uso de IA] oferece tempo hábil para as autoridades tomarem decisões preventivas, como deslocar comunidades, realizar obras emergenciais ou preparar equipes de saúde, por exemplo, para atender aumento de determinadas doenças devido às oscilações climáticas”.
Fique por dentro das últimas
notícias
