Niu Lai não deveria fazer sucesso.Talvez seja esse o ponto.
Um pequeno bezerro aprendendo a andar. É isso. Essa é a premissa de Niu Lai , animação chinesa que começou a chamar atenção nas últimas semanas. Sem efeitos vis

Um pequeno bezerro aprendendo a andar.
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É isso.
Essa é a premissa de Niu Lai, animação chinesa que começou a chamar atenção nas últimas semanas.
Sem efeitos visuais absurdos, sem orçamento de milhões, sem campanha gigantesca e, pelo que foi divulgado sobre a produção, criada pelo diretor Xin Yumeng com a ajuda da própria mãe, Sun Lifang.
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Sim.
O homem chamou a mãe pra ajudar e foi fazer um filme sobre um bezerro.
Enquanto isso tem estúdio gastando milhões de dólares, contratando 14 atores famosos, explodindo três planetas e ressuscitando personagem que já morreu quatro vezes.
E aparentemente o bezerro está dando trabalho.
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Gráfico do filme "Niu Lai"
Crédito: Reprodução/ Internet
Na primeira semana, Niu Lai teria vendido menos de 500 ingressos.
Tudo indicava que o filme simplesmente passaria despercebido.
Só esqueceram de combinar com a internet.
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As pessoas começaram a comentar sobre ele, os vídeos circularam nas redes sociais, o boca a boca cresceu e os cinemas precisaram adicionar novas sessões.
E foi aí que essa história começou a me interessar.
Não exatamente por causa do filme.
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Mas por causa da gente.
Porque olha o momento em que estamos vivendo.
Nunca tivemos tanta tecnologia disponível para criar coisas incríveis.
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O cinema constrói universos inteiros.
A inteligência artificial cria imagens em segundos.
Nosso celular filma em uma qualidade que provavelmente deixaria alguém de 1995 em estado de choque.
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Tem filtro pra melhorar pele, aplicativo pra melhorar foto, IA pra melhorar texto, algoritmo pra descobrir o que você gosta antes de você mesmo.
Daqui a pouco aparece alguma tecnologia pra melhorar até o nosso signo.
E mesmo assim…
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será que a gente cansou de coisas perfeitas?
Calma.
Não estou propondo que Hollywood feche amanhã e todo mundo comece a produzir animação no computador da mãe.
A questão é outra.
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Talvez a gente não esteja cansado de coisas bonitas.
Talvez a gente esteja cansado de coisas tentando desesperadamente impressionar a gente.
Porque tudo virou espetáculo.
Abre o Instagram.
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É “A VIAGEM DA MINHA VIDA”.
“O MELHOR RESTAURANTE DE CAMPINAS.”
“O FILME QUE VAI MUDAR TUDO.”
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“A MÚSICA DO ANO.”
“VOCÊ PRECISA CONHECER ESSE LUGAR.”
Meu amor, às vezes eu não preciso.
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Às vezes eu só quero almoçar.
Só que essa lógica saiu da publicidade e entrou na nossa vida.
Não basta viajar.
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Tem que postar.
Não basta comer uma coisa gostosa.
Tem que tirar foto antes — enquanto todo mundo na mesa observa a batata frita esfriar.
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Não basta ir a um show.
Tem que existir um vídeo de 47 segundos tremendo no seu celular que você provavelmente nunca mais vai assistir.
Não basta viver.
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A vida também precisa parecer interessante para quem está olhando.
E talvez seja por isso que exista alguma coisa tão curiosa nessa história de Niu Lai.
No meio de tanta coisa tentando ser gigantesca, apareceu uma história minúscula.
Um bezerro.
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Aprendendo.
A andar.
Só.
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E as pessoas prestaram atenção.
Talvez porque, quando tudo é extraordinário, o extraordinário começa a ficar meio… normal.
A gente melhorou as câmeras.
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Melhorou os efeitos.
Melhorou a edição.
Melhorou os algoritmos.
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Melhorou a capacidade de criar imagens.
Agora temos ferramentas que conseguem produzir em segundos coisas que anos atrás levariam semanas.
Incrível.
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Mas ainda existe uma perguntinha inconveniente que nenhuma tecnologia resolveu:
você tem alguma coisa pra dizer?
Porque uma imagem perfeita pode fazer a gente parar por alguns segundos.
Mas perfeição não necessariamente faz a gente sentir.
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E talvez esse seja um dos paradoxos mais engraçados do nosso tempo.
Passamos anos tentando tirar todas as imperfeições das coisas.
Da foto.
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Da pele.
Da voz.
Do filme.
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Da casa.
Do feed.
Até da nossa própria vida.
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Aí conseguimos deixar tudo tão bonito…
que começamos a sentir falta justamente daquilo que parecia humano.
E não, eu não sei se Niu Lai representa uma revolução no cinema.
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Pode ser simplesmente um filme que viralizou.
Daqui a alguns meses talvez ninguém mais esteja falando dele.
Mas acho interessante que, em uma época obcecada por chamar atenção, uma animação aparentemente simples tenha conseguido fazer exatamente isso.
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Porque talvez exista uma pequena mudança acontecendo diante da gente.
Quando todo mundo grita, falar baixo chama atenção.
Quando todo mundo tenta parecer perfeito, uma imperfeição vira personalidade.
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Quando todo mundo quer impressionar, ser sincero quase parece ousadia.
E quando absolutamente tudo virou espetáculo…
talvez o simples tenha virado revolucionário.
Ou talvez eu esteja filosofando demais por causa de um bezerro chinês.
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Também é uma possibilidade.
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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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