O dia em que eu interrompi o prefeito — e o ouro olímpico
Era agosto de 1992 . A seleção masculina de vôlei do Brasil conquistava, em Barcelona , a primeira medalha de ouro olímpica da nossa história. O país inteiro vi

Era agosto de 1992.
A seleção masculina de vôlei do Brasil conquistava, em Barcelona, a primeira medalha de ouro olímpica da nossa história.
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O país inteiro vibrava. E, em Campinas, não era diferente.
O então prefeito Jacó Bittar organizou uma cerimônia no Paço Municipal para homenagear o levantador Maurício, filho ilustre da cidade e campeão olímpico.
Secretários perfilados.Terno alinhado.Mesa de comes e bebes pronta.Imprensa convocada.
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E eu… atrasado.
Naquela época, não existia celular. Repórter de rádio trabalhava com um Motorola na mão e muita fé. Quando apertávamos o PTT — Push-to-Talk —, por uma engenharia quase mágica, nossa voz saía ao vivo na programação.
Eu estava no elevador, subindo para o quarto andar do Paço, ouvindo pelo radinho de pilha o programa Notícias na Tarde.
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De repente, o apresentador me chama:
— Valter Sena, boa tarde… a cerimônia em homenagem ao nosso levantador Maurício já começou?
Eu ainda nem tinha chegado.
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Ali eu tinha duas opções:
- Dizer que estava a caminho e pedir alguns minutos.
- Fingir que estava tudo sob controle.
A juventude escolheu a segunda.
Saí do elevador correndo, atravessei a antessala como um velocista olímpico e empurrei a porta do gabinete do prefeito com a delicadeza de um aríete medieval.
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A cerimônia parou.
Todos viraram a cabeça.
Secretários. Convidados. O prefeito.
E, para coroar o momento, o plugue do meu fone escapou. O som do radinho foi direto para o alto-falante.
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— Valter Sena, boa tarde…
O eco tomou conta da sala.
Tentei falar. Nada.
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Na correria, o PTT tinha desconectado.
O apresentador insistia do estúdio.
Eu respondia para ninguém.
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A sala inteira assistia à cena.
Até que o chefe de gabinete se aproximou, sereno:
— Por favor, desligue esse equipamento. O senhor está atrapalhando a cerimônia.
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Ali caiu a ficha.
Desliguei o rádio. Respirei. Fiquei.
Acompanhei a homenagem. Fiz as entrevistas gravadas depois. A matéria foi ao ar mais tarde.
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Mas aquela entrada triunfal — que de triunfal não teve nada — ficou marcada na minha memória.
Com o tempo, aprendi algo simples: admitir que você ainda não chegou costuma ser menos constrangedor do que fingir que já está pronto.
Hoje, conto essa história para estudantes quando falo sobre a profissão. Falo das grandes coberturas, das emoções ao vivo, das vitórias.
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E também falo do dia em que interrompi uma cerimônia olímpica… antes mesmo de conseguir entrar no ar.
Porque jornalismo é isso.
Às vezes, você aperta o PTT na hora certa.
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Às vezes, aprende, ao vivo, que precisava ter esperado cinco minutos.
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