O tamborim do empresário
Setembro de 1992. Inflação descontrolada, dólar em alta, questionamentos sobre o plano Collor e o país mergulhado no processo de impeachment do presidente da Re

Setembro de 1992.
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Inflação descontrolada, dólar em alta, questionamentos sobre o plano Collor e o país mergulhado no processo de impeachment do presidente da República.
Fui destacado pela chefia de reportagem da TV Tracajá para produzir uma matéria sobre a instabilidade econômica e seus reflexos na cidade.
A produção agendou entrevista com um empresário importante do setor produtivo local.
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Entramos no escritório. A secretária ofereceu café. Esperamos alguns minutos até sermos conduzidos à sala dele.
Antes mesmo de falarmos sobre a pauta, ele avisou:
— Não tenho muita facilidade com televisão. Estou um pouco tenso.
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Tentei tranquilizá-lo. Disse que ele dominava o assunto, que seria uma conversa simples.
Mas o assunto era grave: inflação corroendo margens, risco de quebradeira, dólar pressionando custos. Era um país inseguro tentando se reorganizar.
Montamos o enquadramento padrão da época: ele sentado atrás da mesa, eu do outro lado, estendendo o microfone a cada pergunta.
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Primeira resposta.
Um som seco.
Olhei discretamente.
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Os dedos dele tamborilavam na mesa.
Nova pergunta. Silêncio.
Nova resposta. O tamborim voltava.
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O operador de VT fazia caretas. O microfone captava tudo e a batucada ecoava nos ouvidos dele.
Eu precisava do depoimento.
Ele já estava nervoso.
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Apontar o problema poderia piorar.
Interrompi a gravação.
— Sr. Carvalho, o vidro da janela está refletindo nossa imagem. Pode prejudicar a cena. Podemos fazer de pé, aqui no meio da sala?
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Ele concordou.
Refizemos todas as perguntas.
Longe da mesa, o tamborim desapareceu.
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As mãos continuavam tremendo. Mas agora estavam fora do alcance da câmera — e do microfone.
A entrevista terminou.
Meses depois, o país mudaria de presidente.
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A inflação continuaria a assustar por algum tempo.
E eu nunca mais ouvi um tamborim da mesma maneira.
Alguns nomes de empresas e personagens foram alterados para preservar pessoas e instituições. Entre eles, a fictícia Rede Tracajá de Rádio e TV, usada como referência às emissoras onde trabalhei ao longo da carreira.
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*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
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