PF indicia presidente da Voepass e mais 15 por queda de avião em Vinhedo
Inquérito conclui que a tragédia resultou de uma sucessão de falhas ocultas e de uma cultura interna que priorizava manter aviões voando; caso vai ao Ministério Público

A Polícia Federal divulgou nesta quinta-feira (6) a conclusão do inquérito sobre a queda do ATR-72 da Voepass em Vinhedo (SP) e indiciou 16 pessoas por atentado contra a segurança do transporte aéreo, no acidente que matou 62 pessoas em 9 de agosto de 2024.
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A investigação atribuiu a tragédia a uma série de falhas técnicas, operacionais e de gestão, somadas a uma cultura interna que desestimulava o registro de problemas mecânicos e priorizava manter os voos em operação
O avião decolou com falhas já conhecidas no sistema de degelo e seguiu por uma rota com previsão de gelo severo. Os indiciados vão dos pilotos ao diretor-presidente da empresa, José Luiz Felício Filho.
Segundo a PF, os fatos configuram, em tese, um crime de perigo — aquele que se consuma quando a aeronave é exposta ao risco, mesmo sem a queda. As 62 mortes entram como qualificadora. Um dos comandantes também foi indiciado por falsidade ideológica por ter anotado no livro de bordo que não havia nada a relatar sobre o avião.
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Os peritos apontaram falha em parte do sistema pneumático que faz o degelo da asa direita. As caixas-pretas mostram que os pilotos acionaram o equipamento várias vezes, o que indica que conheciam o problema. Ainda assim, a falha nunca foi registrada no livro de bordo nem comunicada à manutenção.
Havia também um defeito no limpador de para-brisa que, pelas normas de segurança, impediria a decolagem. O avião voou mesmo assim.
As conversas na cabine reforçam que a tripulação já sabia da falha. No voo anterior ao da queda, o comandante comemorou o pouso dizendo que haviam chegado vivos. Depois, com o mesmo avião de volta ao ar, os pilotos ironizaram a aeronave e, mais tarde, com o gelo se acumulando nas asas, o comandante reclamou que o sistema não estava funcionando.
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No voo da tragédia, os alarmes soaram avisando sobre a perda de desempenho e a aproximação do estol (quando a aeronave perde sustentação). Segundo a PF, os pilotos conheciam os procedimentos para o caso, mas não os aplicaram durante o voo. Pouco antes da queda, o avião fez uma curva à direita, perdeu sustentação, entrou em parafuso e caiu sobre um condomínio residencial.
O ponto central da investigação é a cultura de subnotificação dentro da empresa. A PF concluiu que havia receio de tirar aviões de operação, e por isso as falhas eram comunicadas só verbalmente ou simplesmente não eram registradas. Nos quatro voos que a aeronave fez naquele dia, houve problemas no degelo sem nenhum registro oficial.
Mais de 30 testemunhas disseram que essa prática era rotina. A investigação ainda resgatou um caso de 2023, quando o mesmo ATR foi liberado para voar em gelo severo com o degelo defeituoso — não houve acidente porque o piloto desviou da área crítica.
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As conclusões reforçam o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acientes Aeronáuticos (Cenipa), divulgado em 23 de julho, que apontou 19 fatores contribuintes para o acidente e uma cultura de "normalização de desvios".
A investigação do Cenipa, órgão ligado à Força Aérea Brasileira (FAB), busca prevenir novos acidentes aéreos, analisando os fatores que contribuíram para uma ocorrência, sem apontar culpados ou definir responsabilidades criminais ou civis.
O voo 2283 saiu de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP), com 58 passageiros e quatro tripulantes, e caiu durante a aproximação para o pouso, sem ferir moradores. Foi o maior desastre aéreo do País desde 2007.
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Em junho de 2025, a Voepass teve o certificado de operação cassado pela Anac. O inquérito segue agora para o Ministério Público Federal (MPF), que vai decidir se denuncia os 16 indiciados à Justiça.
Quem são os indiciados pelo acidente da Voepass
- Edson Serra Martins — piloto
- Luciano Alves de Macedo — piloto
- Oderlino de Campos Figueiredo — despachante operacional de voo
- John Major Viana — despachante operacional de voo
- Marcos Hiroyuki Sato — despachante operacional de voo
- Alex de Souza Leandro — mecânico responsável pela liberação da aeronave
- William Schmidt Agatz — gerente do Centro de Controle Operacional (CCO)
- Juliano Flores Pacheco — gerente do Centro de Controle de Manutenção (MCC)
- Raphael Limongi de Figueiredo — chefe do CCO
- Tiago Passucci Morani — gerente de Engenharia e inspetor-chefe
- Marcel Sarquis Moura — diretor de Operações
- Carlos Alberto Costa — diretor de Manutenção
- Eric Consoli — diretor Técnico
- David da Costa Faria Neto — diretor de Segurança Operacional
- Rafael Gimenez Rodrigues — piloto-chefe e responsável pelo Programa de Monitoramento de Dados de Voo (FOQA)
- José Luiz Felício Filho — diretor-presidente da Voepass
Veja íntegra da nota da Voepass sobre relatório
"A VOEPASS informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional.
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Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional.
A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função.
Desde o início das investigações, a VOEPASS colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente.
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A VOEPASS reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários."
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