Brasil
Brasil

Quando o ator se tornou mais importante que o personagem?

Eu amo a Zendaya. Tipo, amo MESMO. Se amanhã anunciarem um filme de três horas em que ela fica sentada olhando para uma parede, existe uma possibilidade bem gra

7 min

13/08/2026 17:15 • Atualizado há 18 dias

Quando o ator se tornou mais importante que o personagem?

Eu amo a Zendaya. Tipo, amo MESMO. Se amanhã anunciarem um filme de três horas em que ela fica sentada olhando para uma parede, existe uma possibilidade bem grande de eu assistir.

Continua depois da publicidade

E talvez você seja exatamente assim com algum ator ou atriz.

Foi pensando nisso que me veio uma questão: em que momento a gente começou a assistir mais às pessoas do que aos personagens?

Pensa comigo.

Continua depois da publicidade

Estrelas sempre ajudaram a vender histórias. O cinema nunca esteve imune ao poder de um rosto famoso, muito pelo contrário.

Mas existe uma diferença importante hoje: essas estrelas praticamente nunca saem de cena.

A gente acompanha o Instagram, as entrevistas, os tapetes vermelhos, os relacionamentos, os memes, os vídeos de bastidores. Quando chega uma nova produção, muitas vezes já conhecemos ou achamos que conhecemos aquela celebridade antes mesmo de conhecermos o personagem que ela vai interpretar.

Continua depois da publicidade

Então a ordem acaba se invertendo.

A gente vê que determinado ator está no elenco e pronto: já quer assistir. Às vezes nem sabe direito qual é a história. Não viu o trailer. Não sabe quem dirige. Mas viu aquele nome no pôster e já comprou a ideia.

E eu não estou julgando, tá? Acabei de confessar que faço exatamente isso com a Zendaya.

Continua depois da publicidade

O problema, para mim, começa quando deixamos de consumir apenas filmes e séries e passamos a consumir também a imagem de quem está neles.

O ATOR TAMBÉM VIROU O PRODUTO?

Hoje, um ator não vende somente sua atuação.

Ele vende o filme, a entrevista, o tapete vermelho, o look, o corte de cabelo, os bastidores, o relacionamento, os edits no TikTok e até aquele vídeo de sete segundos dele saindo de um carro que alguém vai analisar como se fosse uma cena de O Poderoso Chefão.

Continua depois da publicidade

Antes mesmo da estreia, nós já estamos acompanhando aquela pessoa.

E o mercado sabe disso.

Um ator com um fandom gigantesco não leva para uma produção apenas seu talento. Leva também milhões de seguidores, engajamento, divulgação espontânea e gente disposta a assistir simplesmente porque ele está ali.

Continua depois da publicidade

O ator deixa de ser apenas parte da obra.

Sua imagem também vira parte do produto.

E, quando a imagem de uma pessoa passa a ser tratada como produto, aparece uma expectativa meio assustadora:

Continua depois da publicidade

ela precisa estar impecável o tempo inteiro.

É aí que, para mim, a coisa começa a ficar cruel.

MAS O PERSONAGEM PRECISA SER BONITO?

Zendaya no Red Carpet ao lado de sua personagem em "Euphoria" Rue

Zendaya no Red Carpet ao lado de sua personagem em "Euphoria" Rue

Crédito: Reprodução/Internet

Vamos voltar para a Zendaya.

Continua depois da publicidade

Existe a imagem da Zendaya no tapete vermelho: produzida, maquiada, vestida para aquele evento, fotografada de todos os ângulos.

E existe Rue, de Euphoria.

Rue não precisa parecer a Zendaya de um tapete vermelho.

Continua depois da publicidade

Ela precisa parecer a Rue.

Parece muito óbvio falando assim, né?

Só que às vezes parece que a gente esquece disso.

Continua depois da publicidade

Porque a atuação também passa pelo corpo. Pelo cabelo. Pela postura. Pela roupa. Pelo jeito de andar. Pela maquiagem. Pelo cansaço no rosto.

A aparência de um personagem também conta uma história.

E talvez a gente esteja tão acostumado a acompanhar a versão glamourosa dessas pessoas que estranha quando o ator faz exatamente aquilo que deveria fazer:

Continua depois da publicidade

deixa de parecer uma estrela e começa a parecer o personagem.

TIMOTHÉE CHALAMET EM MARTY SUPREME

Timothée Chalamet no Red Carpet ao lado de seu personagem em "Marty Supreme" Marty Mauser

Timothée Chalamet no Red Carpet ao lado de seu personagem em "Marty Supreme" Marty Mauser

Reprodução/Internet

Um exemplo recente que me fez pensar nisso foi Timothée Chalamet em Marty Supreme.

Timothée é um daqueles atores que carregam uma imagem muito forte fora das telas. Moda, cabelo, tapete vermelho, campanhas, fãs. Existe praticamente uma estética “Timothée Chalamet” que o público reconhece imediatamente.

Continua depois da publicidade

Só que Marty Mauser não tinha obrigação nenhuma de parecer essa versão dele.

Para o filme, sua aparência foi transformada como parte da construção do personagem. Timothée precisou usar cinco próteses para criar as cicatrizes de acne de Marty e passava cerca de uma hora na cadeira de maquiagem. O objetivo da caracterização era fazer com que ele se integrasse ao universo do personagem.

Tudo pensado para fazer Timothée parecer menos Timothée.

Continua depois da publicidade

E essa transformação também gerou comentários nas redes sobre o quanto ele parecia diferente da imagem pela qual ficou conhecido.

E é justamente aí que eu penso:

gente... esse é o trabalho.

Continua depois da publicidade

Ele não precisava corresponder à imagem que o público esperava dele.

Ele precisava ser o Marty.

Se uma caracterização consegue fazer você olhar para Timothée Chalamet e, por alguns minutos, esquecer o galã dos tapetes vermelhos, talvez ela não tenha “estragado” a imagem que conhecemos dele.

Continua depois da publicidade

Talvez ela tenha acertado em cheio.

MAS A GENTE QUER VER O NOSSO “FAV” ARRASANDO

E aqui mora uma contradição maravilhosa e um pouquinho assustadora dos fandoms.

A gente quer que nosso ídolo seja levado a sério como ator.

Continua depois da publicidade

Queremos o papel difícil.

O filme premiado.

A transformação.

Continua depois da publicidade

A indicação.

Queremos postar: “MEU FAV ENTREGOU TUDO”.

Mas será que estamos igualmente preparados para vê-lo diferente?

Continua depois da publicidade

Porque também queremos que ele esteja lindo.

Sempre.

Queremos transformação, mas não demais.

Continua depois da publicidade

Queremos personagens complexos, mas seria ótimo se continuassem fotogênicos.

Queremos grandes atuações, mas, quando a aparência muda, seja pela caracterização ou pelas próprias exigências de um papel, de repente a conversa deixa de ser sobre atuação.

E vira aparência.

Continua depois da publicidade

Percebe como isso é estranho?

Às vezes, o fã gosta tanto da imagem daquele artista que começa a rejeitar qualquer coisa que ameace essa imagem.

Mesmo quando essa coisa é o próprio trabalho do artista.

Continua depois da publicidade

QUANDO O ATOR NÃO PODE MAIS DESAPARECER

Talvez esse seja o preço de uma cultura que transformou atores também em marcas.

Hoje, quando uma grande celebridade entra em cena, ela não entra sozinha.

Entra o Instagram.

Continua depois da publicidade

O último tapete vermelho.

A entrevista que viralizou.

O namoro.

Continua depois da publicidade

A campanha de moda.

O fandom.

Os memes.

Continua depois da publicidade

Tudo isso entra na sala junto.

E quanto maior a estrela, mais difícil pode ser simplesmente olhar para aquela pessoa e enxergar outra.

Só que desaparecer é uma das coisas mais bonitas que um ator pode fazer.

Continua depois da publicidade

E eu falo isso também por já ter sido atriz de teatro.

Eu não estou atuando atualmente, mas tem uma coisa que o palco me ensinou e que ficou comigo: quando você entra em cena, o público não precisa querer o seu cabelo.

Não precisa querer a sua roupa.

Continua depois da publicidade

Não precisa querer parecer com você.

Precisa acreditar.

Porque você não está ali para ser você.

Continua depois da publicidade

Você está ali para fazer alguém acreditar que é outra pessoa.

Talvez admirar um ator também seja aceitar vê-lo “feio”

Eu sei. Essa frase parece estranha. E, fora de contexto, talvez até meio problemática.

Mas pensa nela comigo.

Continua depois da publicidade

Talvez admirar um ator também seja aceitar vê-lo ‘feio’

Que mude.

Que apareça diferente.

Continua depois da publicidade

Que interprete alguém desagradável.

Que use uma caracterização que você jamais colocaria numa pasta de referências do Pinterest.

Que deixe, por duas horas, de parecer com a versão dele que existe na sua cabeça.

Continua depois da publicidade

E as aspas no “feio” são importantes aqui.

Porque quem decidiu o que um ator precisa parecer para continuar sendo considerado bonito?

O corpo do ator também conta histórias.

Continua depois da publicidade

E, quando exigimos que ele esteja eternamente jovem, dentro de um determinado padrão, impecável e reconhecível, não estamos apenas impondo uma expectativa estética praticamente impossível.

Estamos limitando aquilo que ele pode ser em cena.

E talvez essa seja uma das maiores ironias dos fandoms atuais.

Continua depois da publicidade

A gente ama tanto nossos ídolos que, às vezes, sem perceber, pode ser cruel justamente com eles.

Queremos vê-los arrasando.

Mas talvez precisemos aprender que “arrasar” nem sempre significa estar bonito.

Continua depois da publicidade

Às vezes significa estar irreconhecível.

Às vezes significa incomodar.

Às vezes significa fazer você esquecer completamente a pessoa famosa que viu ontem no Instagram.

Continua depois da publicidade

Então sim.

Eu provavelmente ainda vou assistir a um filme simplesmente porque a Zendaya está nele.

Talvez eu faça parte do problema.

Continua depois da publicidade

Mas, quando as luzes se apagarem, espero conseguir esquecer que é ela.

Porque talvez o maior elogio que eu possa fazer a um ator que admiro não seja:

“Meu fav está lindo.”

Continua depois da publicidade

Talvez seja:

“Por alguns minutos, eu esqueci completamente quem estava interpretando.”

E aí, sim, o personagem voltou a ser protagonista.

Seguir a Band no Google

Tópicos relacionados

Quando o ator se tornou mais importante que o personagem?