Quem pode fazer cirurgia refrativa? Miriam Alves Ferreira explica
Oftalmologista mostra como grau, córnea, olho seco e expectativas influenciam a decisão médica.

A cirurgia refrativa pode reduzir a dependência dos óculos em pessoas com miopia, astigmatismo e hipermetropia, mas a indicação não se resume ao número do grau. Antes de qualquer procedimento, características da córnea, condições da superfície ocular, exames pré-operatórios e expectativas do paciente precisam ser consideradas.
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O objetivo da cirurgia é corrigir os chamados erros refracionais, alterações que interferem na maneira como a imagem é focalizada no olho. Ainda assim, pessoas com diagnósticos semelhantes podem receber recomendações diferentes, já que a escolha da técnica depende das condições específicas de cada sistema visual.
Para a oftalmologista Miriam Alves Ferreira, que atua há 12 anos com cirurgia refrativa, uma das etapas mais importantes é justamente estabelecer os limites da indicação.
“Quando recebo um paciente, procuro deixar claro que aquele momento é o início de um cuidado com a saúde dos olhos. A decisão não deve considerar apenas o desejo de deixar os óculos naquele momento, mas aquilo que será adequado para a visão ao longo do tempo.”
A indicação começa antes do laser
A avaliação pré-operatória combina exame clínico, análise do grau e estudo detalhado da córnea. Essas informações permitem verificar se o paciente apresenta condições para uma cirurgia e, quando há indicação, qual abordagem pode ser mais apropriada.
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O grau, isoladamente, não define a conduta. Em casos de miopia mais elevada, por exemplo, o médico pode precisar considerar alternativas diferentes daquelas utilizadas em graus menores. A anatomia da córnea também interfere diretamente nesse planejamento.
“É preciso relacionar o que o paciente apresenta com a técnica mais adequada para aquele caso. Existem situações em que os próprios exames mostram que devemos seguir por outro caminho. A decisão vem do conjunto das informações clínicas, e não da preferência por determinado procedimento.”
Esse cuidado ganha importância em um cenário no qual muitos pacientes chegam ao consultório depois de pesquisar técnicas nas redes sociais. Conhecer o nome de uma cirurgia, porém, não significa que ela seja adequada para todos.
Entre os procedimentos mais conhecidos estão o PRK e o LASIK. Ambos utilizam laser para correção do erro refracional, mas apresentam diferenças na abordagem da córnea e no período inicial de recuperação.
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No PRK, a superfície corneana passa por uma etapa de cicatrização, por isso a recuperação visual costuma ocorrer de forma mais gradual. No LASIK, é confeccionado um flap na córnea antes da aplicação do laser responsável pela correção do grau, o que pode permitir recuperação visual mais rápida nos primeiros dias.
A rapidez, no entanto, não deve ser o principal critério para escolher uma técnica.
“Muitas pessoas chegam interessadas em determinado procedimento porque ouviram falar de uma recuperação mais rápida. O papel do médico é verificar se aquela possibilidade realmente corresponde à anatomia e às condições oculares daquele paciente. A técnica precisa ser consequência da avaliação.”
Córnea, olho seco e segurança fazem parte da mesma decisão
O estudo da córnea é uma das etapas centrais antes de uma cirurgia refrativa. Os exames permitem analisar características que ajudam o oftalmologista a identificar situações nas quais determinado procedimento pode não ser recomendado.
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Entre os aspectos observados está o risco de alterações corneanas, como a ectasia, condição relacionada ao enfraquecimento e à mudança progressiva do formato da córnea.
Nesse processo, selecionar quem deve ou não ser operado é parte fundamental do cuidado.
“Definir se um paciente pode operar é tão importante quanto realizar o procedimento. Em alguns casos, a decisão será indicar uma técnica; em outros, será não indicar a cirurgia. O médico precisa assumir a responsabilidade por essa escolha e respeitar os limites apresentados pelos exames.”
A superfície ocular também merece atenção. Quando há sinais relevantes de olho seco, o quadro pode precisar ser tratado antes que o planejamento cirúrgico avance.
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A presença da condição não significa necessariamente uma contra indicação definitiva. A conduta depende da intensidade dos sintomas, das características oculares e da resposta ao tratamento.
“Quando identificamos um olho seco mais evidente, podemos iniciar os cuidados antes de prosseguir com o planejamento. Hoje existem diferentes possibilidades para melhorar a hidratação ocular, e preparar adequadamente a superfície dos olhos também faz parte de uma indicação responsável.”
Esse tipo de avaliação ajuda a afastar uma percepção simplificada de que a cirurgia começa no momento em que o laser é acionado. Na prática, parte importante da segurança está nas decisões tomadas antes do procedimento.
Expectativa também precisa entrar no planejamento
Além dos exames, compreender o que o paciente espera da cirurgia é essencial. O procedimento não deve ser tratado como uma promessa de nunca mais utilizar óculos, mas como uma possibilidade de reduzir uma limitação visual em pessoas corretamente selecionadas.
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Mesmo após uma cirurgia realizada na juventude, os olhos continuam passando por mudanças naturais ao longo da vida. A partir dos 40 anos, por exemplo, pode surgir a presbiopia, caracterizada pela perda progressiva da capacidade de focalizar objetos próximos.
Nesse caso, voltar a precisar de correção visual para perto não significa necessariamente que uma cirurgia anterior tenha deixado de funcionar.
“Eu procuro explicar o ciclo visual antes mesmo de falar sobre a técnica. Depois dos 40 anos, quem realizou cirurgia e quem nunca realizou passa por uma redução progressiva da capacidade de acomodação para perto. É uma nova fase da visão e precisa ser compreendida dessa maneira.”
O alinhamento de expectativas também ajuda a lidar com uma das inseguranças mais frequentes no consultório: a dúvida sobre se determinado tratamento realmente é apropriado para aquele paciente.
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A quantidade de informações disponíveis na internet pode aproximar o público dos temas médicos, mas também favorece comparações entre procedimentos sem considerar as particularidades de cada caso.
“Muitos pacientes já assistiram a vídeos e pesquisaram diferentes tratamentos antes da consulta, mas ainda não sabem se aquela alternativa é indicada para os próprios olhos. É nesse momento que o médico precisa organizar essas informações, explicar os limites e aproximar a expectativa do que pode ser oferecido com responsabilidade.”
Essa conversa também tem um papel humano. Para quem depende fortemente dos óculos ou sente receio de um procedimento nos olhos, a segurança não está apenas nos exames, mas na possibilidade de compreender cada etapa antes de tomar uma decisão.
Tecnologia amplia possibilidades, mas não substitui a decisão médica
A evolução dos exames e dos equipamentos a laser ampliou as possibilidades de planejamento da cirurgia refrativa. Hoje, diferentes informações sobre a córnea e o sistema visual podem ser analisadas antes do procedimento, permitindo uma escolha cada vez mais individualizada.
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Esses recursos, contudo, não tornam automática a indicação.
“O cirurgião precisa desenvolver raciocínio clínico e capacidade de tomar decisões diante de cada paciente. A tecnologia é uma ferramenta importante, mas existe uma responsabilidade médica anterior à execução do procedimento: saber quem pode operar, qual estratégia utilizar e quando é mais prudente não intervir.”
Para Miriam, esse equilíbrio entre recursos tecnológicos e julgamento clínico também está presente na formação de novos cirurgiões. Além de atuar com pacientes, ela participa da capacitação de médicos em cirurgia refrativa, com atenção justamente ao desenvolvimento do raciocínio necessário para selecionar casos e definir condutas.
No consultório, essa mesma lógica se traduz em um atendimento no qual a intenção de reduzir a dependência dos óculos precisa caminhar ao lado da preservação da saúde ocular.
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Quem é Miriam Alves Ferreira
Miriam Alves Ferreira é oftalmologista e construiu sua formação acadêmica entre diferentes centros de ensino no Brasil e nos Estados Unidos. Graduou-se em Medicina pela Universidade Federal do Paraná e, posteriormente, ingressou na Universidade de São Paulo para a residência em Oftalmologia, instituição onde também desenvolveu sua trajetória de pesquisa e concluiu o doutorado.
Durante a formação, buscou experiências acadêmicas no exterior e passou por instituições ligadas ao ambiente médico e universitário de Harvard. Anos depois, retornou aos Estados Unidos para um novo período de aperfeiçoamento, mantendo a pesquisa e a atualização profissional como parte permanente de sua trajetória.
Atualmente, sua atuação é concentrada em cirurgia refrativa e no acompanhamento de pacientes que desejam reduzir a dependência dos óculos. Também participa da formação de médicos na área. No atendimento, procura combinar avaliação técnica e tecnologia com uma relação próxima, especialmente diante de pacientes que chegam carregando dúvidas ou receio em relação à própria visão.
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CRM: 143999/SP | RQE Nº: 49423Instagram:@dramiriamoftalmo

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