Política

Eleições 2026: Como funciona a checagem de fatos durante os debates?

Agências de verificação de informações se tornaram cruciais para combater a desinformação

7 min

23/08/2026 07:00 • Atualizado há 9 dias

Eleições 2026: Como funciona a checagem de fatos durante os debates?

O Grupo Bandeirantes de Comunicação firmou uma parceria inédita com a Agência Lupa, em junho, para ampliar a circulação de conteúdo verificado durante a campanha eleitoral. Especialista na checagem de fatos, a agência fará análises em tempo real no primeiro debate presidencial da temporada, feito pela Band neste domingo (23).

Continua depois da publicidade

Em meio à disseminação de fake news, favorecida pela presença cada vez mais presente da Inteligência Artificial (IA) e pelo volume de informações disponíveis nos ambientes digitais, a checagem de fatos se mostra um artifício importante para combater a desinformação, aumentar o acesso à informação verificada e qualificar o debate.

A necessidade e a importância da checagem vêm se fortalecendo nos últimos anos não só entre os jornalistas, mas entre os cidadãos. As pessoas já entenderam que a desinformação extrapola o digital e tem efeitos reais na sociedade e na vida cotidiana. --Luciana Corrêa, gerente de conteúdo da Agência Lupa

Em uma pesquisa do Instituto DataSenado de agosto de 2024, oito em cada dez brasileiros consideraram que notícias falsas e desinformação podem afetar o resultado de uma eleição. Na mesma pesquisa, 78% da população respondeu ser a favor do controle de notícias falsas para garantir eleições justas.

Por mais que as agências de checagem tenham começado a atuar no Brasil em meados de 2010, foi depois das eleições de 2018 que veículos tradicionais de imprensa passaram a aderir às plataformas independentes de verificação.

Continua depois da publicidade

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) chegou a incorporar diversas agências ao Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação, criado em 2021. A Corte considera este trabalho um serviço de utilidade pública, essencial para a integridade do processo eleitoral.

Os políticos estão menos preocupados com os fatos e mais preocupados com a narrativa que querem construir [durante a campanha eleitoral]. Muitas vezes eles distorcem alguma informação, às vezes inventam algum dado, e isso incomoda as pessoas. --Luciana Corrêa

A gente de conteúdo completa: "Muitas pessoas sentem a necessidade de encontrar uma informação com um pouco mais de clareza, mais transparente, que as ajude a entender o que está acontecendo, a conversar com outras pessoas e a organizar as informações. E é aí que nós entramos para ajudar”.

Como funciona a checagem de fatos?

O trabalho começa muito antes de os candidatos estarem no púlpito dos debates. Na realidade, os preparativos começam na virada do ano e se intensificam próximo ao período eleitoral --quando a equipe acompanha os políticos com mais proximidade.

Continua depois da publicidade

Há um amplo estudo da maneira como cada candidato se comunica a partir de diversos ângulos: como falam com o eleitorado nas redes sociais, o que dizem, as narrativas e informações que escolhem usar e as bandeiras de cada campanha.

É a partir daí que é possível traçar quais temas serão mais abordados por cada candidato. “Se falarem bastante de segurança pública, um dos temas que caminha para ser bastante usado nas eleições, identificamos quais dados já podemos buscar sobre segurança pública no Brasil e nos estados."

Fazemos um mapeamento e nos cercamos de informação. Também temos um repertório, um acervo de checagens já feitas de algumas pessoas que nos ajuda a apurar com mais agilidade, porque muitos políticos acabam repetindo informações. --Luciana Côrrea

No caso de repetição de informações, a equipe busca a checagem que já foi realizada sobre aquele dado e a atualiza. Por exemplo: se um candidato expressou um dado que foi considerado “falso” na primeira vez e o corrige parcialmente, pode receber rótulos como “verdadeiro”, “exagerado” ou “impreciso”, por exemplo.

Continua depois da publicidade

A agilidade no momento do debate

Com todos os dados compilados, a equipe une forças e precisa funcionar de forma orquestrada para conseguir dar conta da rapidez do tempo real do debate.

Por mais que toda a equipe fique de olho no que está acontecendo, de cinco a seis repórteres ficam inteiramente focados para agilizar a checagem. É neste momento que o repórter identifica frases ao vivo que podem ser checadas. Então, a equipe apura para entender se é possível concluir a verificação imediatamente.

"Vendo que é possível, o repórter já produz e escreve essa checagem, que passa por uma dupla edição. Se está tudo certo, tentamos publicar o quanto antes porque entendemos que a informação verificada precisa circular no mesmo momento da desinformação", explica Corrêa.

Inteligência artificial como aliada

Incorporar a Inteligência Artificial (IA) no processo de checagem de fatos é uma faca de dois gumes: as redações sabem que essa ferramenta pode errar, e tudo o que for apontado por ela deve ser encarado com atenção redobrada.

Continua depois da publicidade

Não à toa, há ocasiões em que a checagem tem como intuito, justamente, apontar quando um conteúdo foi gerado ou alterado com uso de IA. Contudo, Corrêa explica que o uso na Agência Lupa é feito com cuidado e objetivos definidos com precisão. A ferramenta é incorporada no processo em duas ocasiões:

1. Transcritores em tempo real com IA

Em um passado não tão distante, um repórter precisava ouvir o debate e transcrevê-lo em tempo real, digitando palavra por palavra do que cada candidato afirmava. “Além de ser um processo extremamente cansativo, perdíamos um editor ali que não conseguiria dar velocidade à transcrição”, explica Corrêa.

“Hoje, com um transcritor que funciona com IA, conseguimos fazer a transcrição automática do que está sendo dito", explica.

Continua depois da publicidade

2. Organizadores de acervos e dados oficiais

Para conseguir compilar dados e checagens prévias, a agência usa uma IA que organiza todo o acervo interno para facilitar a consulta. A mesma ferramenta também consegue acessar bases públicas de dados oficiais, o que facilita caso o candidato puxe um dado “de surpresa”.

Na prática, Corrêa diz que funciona assim: "Se ouvirmos determinado candidato dizer algo, pensamos: "Acho que já checamos isso". Então, conseguimos consultar por meio da busca. A ferramenta traz resultados para entendermos se já temos informações checadas sobre isso, o que acelera o processo de apuração”.

O que pode ou não ser checado?

Nem tudo o que os candidatos apontam em suas falas públicas pode ser checado. O foco da equipe está em buscar pelo que é factível e pode ser contestado (ou ratificado) com números e afirmações. O processo não é tão simples e é repleto de limites, muitas vezes sensíveis e rigorosamente avaliados caso a caso.

Continua depois da publicidade

Opiniões próprias

Opiniões próprias não entram no escopo da checagem --exceto quando se aponta uma contradição dentro da própria linha de raciocínio do candidato. Como exemplo, Corrêa cita uma figura controversa entre os candidatos: o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

"Se uma pessoa diz: 'O ministro Alexandre de Moraes é um ditador, censor e não respeita a Constituição', é uma opinião. Agora, conseguimos fazer uma checagem se o que for dito é: 'O ministro Alexandre de Moraes é um ditador porque, no julgamento dos envolvidos no 8 de Janeiro, ele conduziu um tribunal injusto que não deu chance de defesa aos réus’”, explica.

O que a pessoa acha do ministro Alexandre de Moraes é problema dela. Mas se a pessoa diz que os julgamentos do 8 de Janeiro foram injustos porque não deram chance de defesa aos réus --uma narrativa bastante usada, inclusive--, é algo que pode ser checado de acordo com a maneira como o tribunal lidou com essa questão. --Luciana Côrrea

Projeções dos planos de governo

O que também fica de fora são especulações ou projeções dos candidatos quanto aos impactos que seus programas podem trazer. Se um deles apresenta uma proposta de aumento do PIB, o que é possível fazer é apresentar os números existentes hoje. “Mas não podemos dizer se algo que ainda não aconteceu é falso ou verdadeiro.”

Continua depois da publicidade

Recorte temporal definido

Afirmações de amplos conceitos ou sem período definido também podem ser englobadas na checagem de fatos. Os candidatos podem mirar em dados do governo Lula, já que é o que está em vigor, para apontar um cenário positivo ou negativo por meio dos dados.

Contudo, a forma como os números se desenrolam é muito mutável --por isso é necessário saber trazer recortes temporais e muitos contextos para embasar o argumento ao eleitor.

“Se alguém fala de um dado estatístico que ficou negativo no atual governo, precisamos saber: de qual período do governo se está falando? De qual mandato Lula está se referindo? Não conseguimos fazer uma checagem do grau de veracidade se não entendermos exatamente de qual período a pessoa está tratando”, explica Corrêa.

Continua depois da publicidade

Checagem feita por mais de uma pessoa

A gerente de conteúdo da Agência Lupa explica ainda que a tarefa nunca é feita por uma pessoa só para eliminar os riscos de subjetividade ou vieses. "Já enfrentamos uma grande barreira com o discurso de que a checagem é uma censura ou o tribunal da verdade. Justamente por isso precisamos focar no que é factível e no que pode ser contestado com dados e documentos", diz.

Eleições 2026: Como funciona a checagem de fatos durante os debates?