Eleições

Fenômeno Cury: após disparar, analistas veem candidato como a real 3ª via

A corrida presidencial brasileira ganhou um elemento de forte imprevisibilidade com a arrancada do escritor e psiquiatra Augusto Cury (Avante) nas pesquisas

4 min

01/09/2026 05:00 • Atualizado há 2 horas

A corrida presidencial brasileira ganhou um elemento de forte imprevisibilidade com a arrancada do escritor e psiquiatra Augusto Cury (Avante) nas pesquisas de intenção de voto. Durante o programa Band Eleições desta segunda-feira (31), os analistas Fernando Mitre, Fernando Schüler e Murilo Hidalgo tentaram decifrar como um candidato antes considerado "nanico" disparou em poucos dias após sua exposição no primeiro debate televisivo.

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Subir de 2 para 11%... nunca vi uma subida tão grande em tão pouco tempo, surpresa total. Quando eu fui buscar ele no portão da Band, estava buscando um nanico, que agora tem 11%. Em pouquíssimos dias, nunca vi. --Fernando Mitre

A divergência entre os levantamentos --que apontam Cury com 7% das intenções na pesquisa Atlas e 11% na pesquisa BTG-- foi explicada por Mitre pelo fator tempo e exposição. Como a pesquisa BTG/Nexus colheu dados por dois dias a mais (até 30 de agosto), ela captou o impacto imediato do debat presidencial da Band TV, mas também da subsequente entrevista de Cury na TV Globo.

Murilo Hidalgo, diretor do instituto Paraná Pesquisas, corroborou a tese do crescimento em velocidade recorde. "É surpreendente, foi um crescimento de quarta-feira (26) para cá, de quatro dias", analisou Hidalgo, destacando o caráter geográfico do fenômeno: "Ele não cresceu no estado São Paulo, mas no Brasil inteiro, de forma uniforme".

Para o pesquisador, o escritor virou "a figura mais comentada" do pleito, o que deve lhe render uma enxurrada de entrevistas e ainda mais visibilidade. Para Murilo Hidalgo, a expectativa é que Augusto Cury cresça ainda mais no decorrer dessa semana.

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Presidente ou terapeuta? O cansaço da agressividade

Para os analistas, o principal motor de Cury é a fadiga do eleitorado com o clima de hostilidade política. Fernando Mitre pontuou que o candidato foi muito bem no debate da Band ao adotar uma postura que atrai diretamente "uma área do eleitorado que é crescente, que é a área que não está suportando conviver com essa polarização".

Ao contrário de outros postulantes à terceira via, que acabam mimetizando a agressividade dos polos da disputa, Cury posiciona-se como um moderado real.

Essa distinção de estilo foi o foco da análise do cientista político Fernando Schüler. Ao comparar Cury com Renan Santos (Missão) --que também se apresenta como alternativa independente--, Schüler apontou que o candidato do Missão peca ao usar os mesmos métodos agressivos e polarizadores da direita e da esquerda.

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Schüler relembrou o momento crucial do debate em que o escritor se dirigiu a Renan Santos e disparou: "Você tem boas ideias, mas sua agressividade me assombra". Para o cientista político, essa frase sintetizou o sentimento de parcela expressiva da população. "Até brinquei: será que o Brasil precisa de um presidente ou de um terapeuta?", ironizou Schüler.

Para o cientista político, embora os jornalistas possam não ter apreciado o tom suave, Cury não fala para a imprensa, mas para "segmentos de opinião" específicos. Os dados mostram que sua força se concentra especialmente entre os jovens, universitários e eleitores de maior renda (acima de cinco salários mínimos).

O peso do 'best-seller' e a rejeição aos favoritos

A carreira literário de Cury também joga a seu favor, conforme lembrou Murilo Hidalgo. "Vale lembrar que ele é um dos escritores mais lidos do Brasil. Os livros dele são de autoajuda. Quem compra já conhece e tem apreço por ele". Esse público fiel, aliado ao fato de ele ter ganhado visibilidade nacional na televisão, cria um ambiente propício para que ele continue crescendo no curto prazo.

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Outro fator crucial é o voto de protesto ou de exclusão que hoje sustenta as candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Hidalgo revelou um dado alarmante para os líderes da corrida: "60% dos motivos dos eleitores [de Lula e Flávio] é para o outro não ganhar, não é uma empolgação natural".

Diante desse cenário de voto defensivo, a emergência de uma alternativa verdadeiramente moderada como Cury tem um potencial disruptivo imenso.

Teste de resistência: falta de TV e maior escrutínio

A grande incógnita que divide os analistas é a capacidade de sobrevivência dessa onda. Fernando Schüler alertou que, apesar da sinalização clara de alta nas pesquisas Atlas e Nexus, o maior desafio de Cury será a estrutura. "A questão é sustentar... ele tem pouco tempo de televisão, mas tem um processo natural agora: as pessoas vão conhecer, ficar entusiasmadas".

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Murilo Hidalgo, por sua vez, advertiu que a fase de "lua de mel" de Cury está prestes a acabar. Ao se consolidar como uma ameaça real aos líderes, o nível de exigência sobre ele mudará de patamar.

O que pode fazer ele crescer ainda mais é a justificativa para os votos de Lula e Flávio... mas temos que ver o desempenho dele agora. Ele vai ser mais cobrado, vai ser mais indagado, vai ter que falar mais. Vamos ver se isso vai ajudar ele ou atrapalhar. --Murilo Hidalgo

Com as campanhas de Ronaldo Caiado (PSD) já em estado de alerta e revisando estratégias de contenção diante desta ascensão, os próximos dias testarão se o "fenômeno Cury" é um balão de ensaio alimentado pela novidade ou se o Brasil está de fato pronto para trocar o palanque pelo divã.

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