Lobista diz que Lula ofereceu cargo no governo: "Escolhe onde quer ficar"
Mensagens da PF indicam Fábio Luís como 'beneficiário indireto' em tratativas com empresários que buscavam contratos no governo federal
A lobista Roberta Luchsinger afirmou, em mensagens de celular recuperadas pela Polícia Federal (PF) citadas pela revista Veja e confirmadas pelo Jornal da Band nesta quinta-feira (20), que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe ofereceu um cargo no governo ao chamá-la e perguntar: "Escolhe onde vc quer ficar", no contexto de apurações sobre um suposto esquema de tráfico de influência envolvendo o filho do petista, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, em Brasília.
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Segundo a publicação, em conversa com um empresário em 2024, Roberta disse: "Fui das poucas pessoas que o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (...) Eu disse: aonde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando." Ela completou: "Tô em cargo nenhum e ando onde quero", ao explicar que preferiu manter a atuação em parceria com Lulinha e Fernando Bittar, um antigo sócio do filho do presidente que teria interlocução de interesses privados perante agentes públicos.
Na mesma troca de mensagens, a lobista resumiu a proximidade com os dois: "Fefe (Bittar), Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, todos vão. A gente é mesmo irmão".
Questionado, o governo negou oferta de cargo a Luchsinger e informou que o presidente Lula não a conhecia. O advogado de Fabio Luis, Marco Aurélio Carvalho, afirma que não teve acesso ao inquérito, que não sabe se as mensagens são verdadeiras, mas que o conteúdo divulgado não revela a prática de crimes. A defesa de Luchsinger não se manifestou.
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"Beneficiário indireto" em negociações
Documentos da PF, citados pela Veja, indicam que Fábio Luís tinha participação ativa em um suposto esquema de tráfico de influência, embora a lobista buscasse preservá-lo. Em uma das mensagens, ela afirma: "Fábio não faz nada. Ele só entra em campo quando precisa. Tem que se preservar".
De acordo com relatório policial, Fábio Luís é citado em mensagens encontradas no celular de Roberta como o "beneficiário indireto" das negociações com empresários interessados em contratos no governo federal. O documento registra: "As comunicações indicam que Fábio é mencionado por Roberta Luchsinger como referência decisória nos projetos discutidos. Ele foi indicado como beneficiário indireto das articulações conduzidas por terceiros em seu nome".
Não há, no entanto, referência a negócios que Lulinha e Roberta tenham efetivamente fechado com o governo federal. A defesa do filho do presidente afirma que ele é investigado há anos e que nenhuma conduta ilícita foi comprovada, enquanto o advogado Marco Aurélio de Carvalho tem reiterado críticas a supostos vazamentos de informações sigilosas.
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Grupo em aplicativo e aproximação com empresários
Segundo a revista, a PF aponta que Roberta, Fábio Luís e Fernando Kalil, sócio de Lulinha, atuavam de forma combinada e compartilhavam um grupo de WhatsApp chamado Musaranhos, em que Roberta era tratada como musa e Lulinha e Fernando como musos. Ali, eles discutiam os negócios que tentavam emplacar junto ao governo federal.
Um desses negócios envolvia a tentativa de convencer o Ministério da Saúde a adquirir um produto à base de canabidiol. Entre os beneficiados estaria o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, apelidado de "Careca do INSS". Em conversas reveladas pelo Estadão/Broadcast, Roberta diz que ela e o filho do presidente atuavam em conjunto: "Eu sou o Fábio".
Nas mensagens de celular, a lobista também detalha como buscava transitar nos bastidores de Brasília. Ela descreve o próprio método: "Eu trabalho a política via Palácio. Eu sou boa de costura política".
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Articulação no Ministério da Saúde
No caso do canabidiol, havia necessidade de convencer o Ministério da Saúde a adquirir o produto. Entrou então na articulação o então chefe de gabinete de Lula, conhecido como Marcola, que, segundo a revista, teria atuado para marcar uma reunião de Roberta com o então secretário-executivo da Saúde Swedenberger Barbosa, o Berge.
Conforme as mensagens obtidas pela PF, a reunião na Saúde só ocorreu por interferência direta de Fábio Luís. Em março de 2024, Roberta escreveu a ele: "Pousei. Vou lá no Berge". Lulinha respondeu: "Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo (beijo) pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou", em tom de brincadeira. Na sequência, a lobista reforçou a importância do auxiliar: "Precisamos 100% do Berge".
Reclamações sobre a Telebras
Ainda segundo a Veja, a PF registra a atuação de Fábio Luís e Roberta em outro setor do governo, a Telebras. Em conversas, eles demonstram incômodo com a atuação de Kalil Bittar, irmão de Fernando, que estaria usando o nome do filho do presidente para obter negócios na estatal.
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Em uma mensagem dirigida a Fábio, Roberta relata: "Kalil vendendo vc e a grande influência dele para o presidente da Telebras. Quase fechando um negócio gigante". Na sequência, ela completa: "Vendendo facilidades, Telebras contrata ele, plataforma dele, coisas que ele indicar". Segundo a revista, Lulinha teria pedido que a lobista "desmetisse" que ele havia autorizado o uso de seu nome nessas tratativas.
Despesas, viagens e novos negócios
A apuração da PF também registra conversas em que Roberta apareceria como responsável por pagar despesas de Fábio Luís. Em uma delas, há menção a uma viagem para a África, organizada por ela e que custaria US$ 20 mil por pessoa. Lulinha questiona: "A gente tem grana pra bancar essas coisas? Vc que cuida das minhas finanças".
Em outro diálogo, o filho do presidente menciona a possibilidade de um novo negócio em discussão entre os dois, sem que a revista detalhe de que se tratava. Ao comentar a oportunidade, ele escreve: "Coisa boa paporra".
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Inquéritos no STF e posição do Ministério Público
As investigações da PF que mencionam Fábio Luís fazem parte de inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF). Nesta quinta-feira, apesar do teor do relatório policial, o Ministério Público Federal (MPF) enviou parecer ao ministro André Mendonça, relator de dois dos três procedimentos que envolvem Lulinha, para que o caso seja remetido a outra instância judicial, sob o argumento de que não há autoridade com foro sob investigação que justifique a permanência do inquérito no Supremo.
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