Mounjaro para crianças: liberação da Anvisa alerta sobre uso desenfreado
Especialistas alertam para riscos, uso indevido e falta de dados de longo prazo após liberação para crianças com diabetes tipo 2
A decisão da Anvisa de ampliar o uso do Mounjaro para crianças e adolescentes a partir de 10 anos com diabetes tipo 2 ocorre em um momento de mudança no perfil da doença: cada vez mais precoce e associada ao avanço da obesidade infantil.
Continua depois da publicidade
Embora historicamente mais comum após os 40 anos, o diabetes tipo 2 tem crescido entre jovens no Brasil e no mundo. Estudos apontam aumento expressivo da incidência nas últimas décadas, impulsionado principalmente pelo sedentarismo e pelo excesso de peso.
Dados globais indicam que a taxa da doença entre pessoas de 15 a 39 anos cresceu 56% entre 1990 e 2019. No Brasil, estimativas sugerem que mais de 200 mil adolescentes convivam com o diagnóstico, enquanto cerca de 1,4 milhão apresentem pré-diabetes.
Esse cenário ajuda a explicar a ampliação do arsenal terapêutico. Ainda assim, especialistas alertam que o uso da chamada “caneta” deve ser cercado de critérios rigorosos, sobretudo na população pediátrica.
Continua depois da publicidade
Doença mais precoce e mais agressiva
O avanço entre jovens não é apenas numérico — ele também muda o comportamento da doença. Segundo o endocrinologista Fernando Valente, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), o diabetes tipo 2 diagnosticado precocemente tende a ser mais agressivo e com maior impacto ao longo da vida.
Sem tratamento adequado, pode levar a complicações graves como problemas renais, perda de visão, amputações, infarto e AVC. Em adolescentes, esse risco aparece mais cedo: cerca de 10 anos após o diagnóstico, metade dos pacientes já apresenta alguma complicação crônica.
“O diabetes tipo 2 é uma doença séria, que não pode ser subestimada. Quanto mais cedo aparece, maior o impacto na expectativa de vida”, afirma.
Continua depois da publicidade
Nesse contexto, novas opções terapêuticas passam a ser vistas como ferramentas importantes para conter a progressão da doença.
Como o medicamento atua
A tirzepatida pertence a uma classe mais recente de medicamentos que atua em múltiplos mecanismos do organismo. Ela melhora o controle da glicose ao estimular o pâncreas a liberar insulina de forma mais eficiente quando os níveis de açúcar no sangue estão elevados e, ao mesmo tempo, reduz a liberação de glucagon — hormônio que contribui para o aumento da glicemia.
Outro efeito importante é o retardo do esvaziamento gástrico, o que prolonga a sensação de saciedade e leva à redução da ingestão alimentar. Esse mecanismo ajuda não apenas no controle glicêmico, mas também no manejo do peso corporal.
Continua depois da publicidade
Como explica o médico Levimar Araújo, do departamento de diabetes Tipo 1 em crianças e adolescentes da SBD, essas medicações também atuam no controle da glicose após as refeições, reduzindo picos glicêmicos e facilitando a ação da insulina — um ponto central no tratamento de pacientes com resistência insulínica.
Esse conjunto de ações faz com que o medicamento atue de forma integrada sobre dois dos principais pilares do diabetes tipo 2: a resistência à insulina e o excesso de peso. Como entre 80% e 90% dos pacientes com a doença apresentam sobrepeso ou obesidade, a perda de peso tende a melhorar significativamente a resposta do organismo à insulina.
Além disso, especialistas apontam que o uso da medicação pode contribuir para a redução do risco de complicações associadas ao diabetes, como doenças cardiovasculares e renais, especialmente quando integrado a um plano de tratamento mais amplo.
Continua depois da publicidade
Por isso, o medicamento é considerado uma ferramenta relevante no controle da doença — sobretudo em casos mais complexos —, mas sempre como complemento às mudanças no estilo de vida, e não como substituto.
Riscos e efeitos colaterais
Apesar dos benefícios, o uso em crianças e adolescentes exige cautela. O nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, destaca que os efeitos colaterais mais comuns são gastrointestinais.
“São frequentes náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia e constipação. Em crianças, há maior incidência de vômitos, dor abdominal e episódios de hipoglicemia em relação aos adultos”, afirma.
Continua depois da publicidade
Há também riscos menos comuns, mas potencialmente graves, como pancreatite aguda, desidratação com lesão renal, problemas na vesícula biliar e reações alérgicas.
Levimar Araújo acrescenta que o controle da dose é fundamental, especialmente em crianças. Doses inadequadas podem reduzir excessivamente o apetite, levando à ingestão insuficiente de nutrientes — o que pode impactar o metabolismo e até o desenvolvimento.
Outro ponto de atenção é a formação de cálculos biliares em casos de perda de peso muito rápida, além da necessidade de acompanhamento oftalmológico em pacientes com retinopatia.
Continua depois da publicidade
Crescimento e desenvolvimento ainda em observação
Ainda não há evidências de que o medicamento afete crescimento, puberdade ou desenvolvimento hormonal. No entanto, os dados disponíveis são limitados no longo prazo.
Os estudos que embasaram a aprovação acompanharam pacientes por cerca de um ano — período considerado insuficiente para avaliar efeitos tardios em fases críticas do desenvolvimento.
Por isso, especialistas recomendam monitoramento contínuo da curva de crescimento, do estado nutricional e do desenvolvimento puberal.
Continua depois da publicidade
Avaliação antes do uso
A indicação do medicamento deve ser criteriosa. Ele é recomendado apenas para crianças e adolescentes com diagnóstico confirmado de diabetes tipo 2, geralmente associado ao excesso de peso e à resistência à insulina.
Antes de iniciar o tratamento, é necessária uma avaliação completa, incluindo histórico familiar, exames laboratoriais e análise de possíveis comorbidades.
Também é essencial avaliar o contexto do paciente, como hábitos alimentares, nível de atividade física e apoio familiar — fatores que influenciam diretamente no sucesso do tratamento.
Continua depois da publicidade
Uso indevido preocupa
A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” levanta preocupações adicionais. Especialistas alertam para o risco de uso inadequado do medicamento por jovens sem indicação clínica, motivados por pressão estética.
“O maior perigo é banalizar um tratamento sério”, afirma Ribas Filho.
Entre os riscos do uso indevido estão desidratação, perda de massa muscular, carências nutricionais e alterações no comportamento alimentar — além de impactos emocionais, especialmente em uma fase sensível como a adolescência.
Continua depois da publicidade
Tratamento exige abordagem ampla
Apesar da eficácia, o medicamento não substitui mudanças no estilo de vida. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono adequado e acompanhamento multidisciplinar continuam sendo fundamentais.
“O remédio é uma ferramenta, mas não resolve sozinho. O tratamento precisa envolver a família e mudanças consistentes na rotina”, reforçam os especialistas.
A ampliação do uso do Mounjaro representa um avanço importante diante do crescimento do diabetes tipo 2 entre jovens. Para especialistas, a medida amplia as possibilidades de tratamento e pode ajudar a reduzir complicações futuras.
Continua depois da publicidade
Ao mesmo tempo, o consenso é que o uso deve ser feito com responsabilidade, dentro das indicações médicas e com acompanhamento contínuo.
Em um cenário de aumento da obesidade infantil e pressão por soluções rápidas, o desafio será equilibrar acesso à inovação com o uso seguro — evitando que uma ferramenta importante se transforme em risco à saúde.
Fique por dentro das últimas
notícias
