Passar mal não é normal! Médicos alertam sobre riscos no fisiculturismo
Especialistas afirmam que câimbras, tontura, visão turva e desmaios podem ser sinais de alerta durante protocolos extremos de preparação
A morte do fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, reacendeu discussões sobre o uso de hormônios, insulina e protocolos extremos no fisiculturismo. Mas, além das substâncias utilizadas, especialistas chamam atenção para outro fator que consideram preocupante: a normalização de sintomas graves durante a preparação para competições.
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Segundo médicos ouvidos pela Band, muitos atletas convivem com sinais de alerta importantes — como tontura, fadiga extrema, câimbras e alterações neurológicas — sem interromper a rotina de treinos e protocolos.
Para a nutróloga Carolina Braga, existe uma cultura instalada dentro do esporte de que o sofrimento faz parte do processo.
“Existe uma cultura no fisiculturismo de que sofrer faz parte e que passar mal é normal nessa fase. Talvez não seja. Muitos desses sintomas são uma linguagem que o corpo está usando para pedir socorro”, afirma.
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Câimbras, tontura e visão turva podem ser sinais ignorados
Segundo a especialista, atletas em fase final de preparação podem apresentar sintomas importantes e, ainda assim, seguir os protocolos normalmente.
“Esses atletas podem conviver com câimbras, tontura, fadiga extrema, alterações de humor, fraqueza muscular e visão turva e mesmo assim continuam toda a preparação”, explica.
O problema, segundo ela, é que a chamada “peak week” — período final antes das competições — costuma envolver manipulação agressiva de água, sódio, potássio, carboidratos e diuréticos para aumentar a definição muscular.
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Essa combinação pode gerar alterações eletrolíticas importantes.
“Essas mudanças exigiriam monitorização contínua em ambiente hospitalar. Pacientes internados com alterações de sódio e potássio ficam monitorizados. Já esses atletas fazem isso sem exames e sem acompanhamento em tempo real”, alerta.
Uso de insulina pode levar a coma em minutos
Outro ponto de atenção é o uso de insulina por atletas sem diabetes.
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A substância, utilizada para aumentar a entrada de glicose e aminoácidos nas células musculares, é usada por alguns fisiculturistas pelo efeito anabólico e pela associação com hormônio do crescimento (GH) e IGF-1.
Segundo a médica, o problema é que pequenos erros podem desencadear uma emergência médica.
“Um erro no cálculo dos carboidratos, um atraso da refeição ou um treino no horário errado pode transformar uma dose considerada leve em uma dose potencialmente fatal”, explica.
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Ela afirma que os sintomas aparecem em duas etapas.
Na primeira, o organismo tenta compensar a queda da glicose e surgem sinais como:
- suor frio intenso;
- tremores;
- palpitações;
- palidez;
- ansiedade;
- fraqueza.
Na sequência aparecem os chamados sintomas neuroglicopênicos, quando o cérebro já está recebendo pouca glicose:
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- visão turva;
- confusão mental;
- fala arrastada;
- alterações de comportamento;
- sonolência excessiva;
- convulsões;
- perda de consciência.
“Em quem usa insulina sem indicação, essa progressão pode acontecer em minutos e evoluir para coma e parada cardiorrespiratória”, alerta.
A especialista reforça que não existe uso seguro da substância para fins estéticos.
“A insulina é um medicamento de janela terapêutica estreita. A diferença entre a dose que ajuda e a dose que mata é muito pequena”, afirma.
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“O maior risco não é a musculação, é a farmacologia”
Para o médico nutrólogo e do esporte Carlos Alberto Werutsky, diretor do Departamento de Nutrologia Esportiva da ABRAN, o problema central não está na musculação em si.
“Os maiores riscos não estão na musculação, mas em toda a farmacologia que sustenta esse físico competitivo”, afirma.
Segundo ele, o uso combinado de anabolizantes, hormônio do crescimento, insulina e IGF-1 pode desencadear uma série de alterações.
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Entre elas estão:
- cardiomiopatia induzida por anabolizantes;
- arritmias graves;
- tromboses;
- lesão hepática;
- alterações severas do colesterol;
- distúrbios eletrolíticos.
“Somar hormônio do crescimento, insulina e IGF-1 adiciona um risco ainda maior. Casos graves são consequência de agressões silenciosas que o corpo já vinha sofrendo”, diz.
Manipulação de água e sal pode afetar coração, rins e cérebro
Os protocolos de “secagem” também entraram no debate após relatos de atletas sobre consumo elevado de sal durante preparações.
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Segundo a médica Carolina Braga, estratégias desse tipo têm objetivo estético: reduzir a água sob a pele para aumentar a definição muscular no palco.
Ela alerta, porém, que o custo fisiológico pode ser alto.
“O excesso de sódio puxa água para dentro dos vasos, expande o volume circulante e pode provocar picos hipertensivos. Os rins entram em estresse máximo e o risco de arritmias aumenta”, explica.
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A médica destaca que oscilações bruscas de líquidos podem gerar desidratação severa, hiponatremia, rabdomiólise, insuficiência renal e alterações cardíacas.
“O corpo humano não foi feito para oscilar cinco a dez litros de líquido em poucos dias”, afirma.
Já Werutsky lembra que a busca pela definição muscular extrema costuma envolver desidratação.
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“A definição para competição implica em desinchar. A desidratação aumenta a viscosidade do sangue e favorece eventos tromboembólicos”, explica.
A morte de Ganley ampliou o debate sobre os limites da preparação extrema e sobre a necessidade de monitoramento médico em um ambiente onde, segundo especialistas, sintomas graves ainda são frequentemente tratados como parte do processo.
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